A actividade de arqueólogo de Francisco Martins Sarmento é indissociável da sua prática de fotógrafo. Tendo iniciado os seus ensaios fotográficos em 1868, empregará a técnica do registo fotográfico como uma das ferramentas das suas prospecções arqueológicas a partir do momento em que, a partir de 1875, se lançou na aventura de desenterrar o passado nas ruínas da Citânia de Briteiros, tornando-se num dos pioneiros da fotografia científica em Portugal. Foi através de dois álbuns fotográficos (o primeiro de Dezembro de 1876, o outro de Fevereiro de 1878) que preparou e enviou a diversas instituições científicas do seu tempo, que chamou a atenção dos estudiosos para a importância das suas descobertas em Briteiros e em Sabroso.

Os dois álbuns de fotografias de Martins Sarmento foram editados em 1992 pela Sociedade Martins Sarmento. São dessa edição os textos de Teresa Siza e Francisco Sande Lemos que aqui se reproduzem:

Para copiar os milhões e milhões de hieróglifos que cobrem, mesmo no exterior, os grandes monumentos de Tebas, de Mênfis ou de Karnak, etc., seriam necessárias dezenas de anos e legiões de desenhadores. Com o daguerreótipo, um homem sozinho poderia levar a cabo este trabalho imenso. Equipe-se o instituto do Egipto com dois ou três aparelhos do Sr. Daguerre e (..) vastas extensões de hieróglifos reais irão substituir os hieróglifos fictícios ou de pura convenção; e os desenhos hão-de ultrapassar em fidelidade, em cor local as obras dos mais hábeis pintores; e posto que as imagens fotográficas se submetem na sua formação, às regras da geometria, hão-de permitir, com a ajuda de um pequeno número de dados, remontar às dimensões exactas das partes mais elevadas e mais inacess íveis dos edifícios.

François Arago, Relatório sobre o Daguerreotipo dirigido à Câmara dos Deputados e à Academia das Ciências, em 1839

Trata-se de definir as genealogias que a mentalidade burguesa exigia, naquela segunda metade do século XIX em que tudo aconteceu. Os novos valores que tinham apontado para o mérito voltavam-se agora para a criação de um imaginário colectivo que as novas ciências ajudavam a preencher; a arqueologia é o sangue azul da humanidade sem sangue azul. Então, desde o seu nascimento, é a genealogia da paixão e o cadinho da cultura possível.

A fotografia, desde o primeiro momento, definiu o trabalho sistemático porque permitiu a criação do objecto científico, pelo deslocamento que a imagem já é. Francisco Marfins Sarmento foi o intelectual e o investigador que a conjuntura portuguesa exigia: ultrapassou as “antiguidades” e definiu cientificamente o quadro de aparecimento e caracterização do antepassado português, indispensável — parecia — à criação da nossa identidade. Tema de paixão, como tudo o que este homem franzino parece ter produzido.

Com toda a naturalidade, a sua convivência com a fotografia é total; ele é um instrumento de trabalho - deixou-nos centenas de chapas que ilustram nomeadamente as escavações e os achados, motivos aferentes, também o milagre do aprendiz de feiticeiro e a curiosidade de saber que o leva a juntar os “clássicos” da técnica da fotografia à elitista Arte Photographica. Na memória fica a “Pedra Formosa” — também alguns belos retratos. Mas a leitura minuciosa dos seus cadernos de trabalho, a rigorosa biblioteca, as colecções de objectos arqueológicos e etnográficos, falam de uma geração que dizemos “atacada” de cientismo mas que representava afinal uma das maiores confianças do homem que a cultura produziu; um dos aspectos mais inesperados nestes rigorosos positivistas é fazerem dos seus relatórios o diário íntimo que a ciência não perdoa. Os Cadernos de Martins Sarmento conseguem transmitir a excitação, a febre e o milagre da investigação fotográfica, como se reconstituísse o espaço alquímico que a ciência nega. Seria de grande actualidade que a publicação desses Cadernos permitisse a todos os que gostam de fotografia reviver aquelas operações minuciosas e decisivas que estão na base do sentimento de criação fotográfica e que, desaparecendo, podem reduzir o trabalho fotográfico a uma técnica vulgar.
M. Teresa Siza
Outubro de 1992

MARTINS SARMENTO — PIONEIRO DA FOTOGRAFIA COMO MÉTODO DE REGISTO E DIVULGAÇãO EM ARQUEOLOGIA

Quando, em 1875, Francisco Martins Sarmento, iniciou o estudo da Citânia de Briteiros, o universo dos castros era uma incógnita e a arqueologia portuguesa dava os primeiros passos, limitada ao sul do país, onde os elementos da Comissão Geológica — Pereira da Costa, Carlos Ribeiro e Nery Delgado — se dedicavam a escavar grutas, concheiros e dólmenes.

Existia, no norte de Portugal, uma tradição erudita, sustentada por antiquários, interessados em desvendar os enigmas encerrados nas ruínas das “cidades mortas” e em registar os achados, designadamente as epigrafes, que ocorriam, aqui e acolá, de quando em quando. Esse saber erudito, que remontava ao século XVI, renovado, de geração em geração, por magistrados e eclesiásticos, mantinha-se, porém, na esfera literária. As imagens eram raras, embora deva recordar-se os excelentes desenhos que ilustram a obra impressa de Jerónimo Contador de Argote (primeira metade do século XVIII), ou os manuscritos de Távora e Abreu ou, ainda, as Memórias de Anciães elaboradas pelos reverendos J0ã0 Pinto de Morais e A. de S. Pinto Magalhães. Os desenhos das pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa ou dos penedos epigrafados do santuário romano de Panóias, constituem alguns dos primeiros esboços de um registo distinto da escrita, em matéria de arqueologia. Este registo, o desenho, irá manter-se e generalizar-se, ao longo da história da arqueologia, sendo hoje uma preciosa e quotidiana ferramenta, seja em campo seja no gabinete. Nas revistas científicas as estampas com figuras são uma parte indispensável de qualquer artigo ou comunicação. No entanto, para os meios técnicos da época — séculos XVIII e XIX — os desenhos e as gravuras resultantes eram um processo oneroso e lento.

Na segunda metade do século XIX, uma nova modalidade de registo, é aplicada em trabalhos arqueológicos: a fotografia.
No nosso país, Martins Sarmento é um dos pioneiros na utilização deste novo método de registo, a que recorre, quer para gravar as imagens das escavações e das ruínas exumadas, quer para fixar os objectos retirados do subsolo. Aliás a divulgação da Citânia de Briteiros, como porta de acesso ao conhecimento da Idade do Ferro e da Romanização do Noroeste Peninsular, está intimamente associada à fotografia. Na verdade, será através de dois álbuns fotográficos, que o arqueólogo vimaranense vai divulgar os resultados das suas pesquisas.

Os álbuns, acompanhados por uma breve introdução e devidamente legendados, foram remetidos ao Instituto de Coimbra, à Sociedade de Geografia de Lisboa e à Real Associação dos Architectos e Archeologos Portugueses. Nas sessões destas academias, os eruditos folheiam as páginas dos álbuns e deparam com os sinais de um novo universo científico, um olhar sobre o passado: imponentes panos de muralhas, ruínas de casas circulares e rectangulares erguidas em excelente aparelho granítico, pedras lavradas com misteriosas decorações, objectos de bronze e ferro, fragmentos de olaria.

As imagens operadas, reproduzidas e legendadas por Francisco Martins Sarmento não ilustravam um discurso explicativo das ruínas postas a descoberto no Monte de Briteiros e no Castro de Sabroso. As fotografias formavam um feixe de perguntas. Para responder a esse conjunto de interrogações organizou-se no ano de 1887, em Guimarães, a primeira reunião científica de arqueologia, celebrada em Portugal. Só a partir de então se começou a organizar um discurso sobre o mundo dos castros, conhecimento que se irá construindo progressivamente ao longo de décadas. Entretanto, as fotografias produzidas por Martins Sarmento tiveram longa vida e difundiram-se pela Europa. Em 1882 figuravam entre as estampas do volume das Actas da IX Sessão do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas, realizado em Lisboa em 1880. Em 1888 eram impressas num volume que será um ponto de referência obrigatório no conhecimento europeu sobre o passado longínquo: o Manual de Pré-História de Émile Cartailhac, um dos estrangeiros que participara na excursão à Citânia de Briteiros, realizada no âmbito do mencionado Congresso.

As fotografias da autoria de Martins Sarmento, ora reproduzidas de novo, mais de um século depois de terem sido operadas, estiveram nas raízes da formação da arqueologia científica em Portugal.

Braga, 28 de Outubro
Francisco de Sande Lemos

 

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