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Descrição
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A gripe é altamente contagiosa. Por isso, todas as instruções prescritas pela Direção Geral de Saúde devem ser rigorosamente seguidas. Nenhuma idade, sexo, condição ou profissão social coloca ao abrigo do seu ataque; entretanto, é certo que a idade dos 20 aos 40 anos é a que dá maior percentagem de atacados. É a idade em que o indivíduo, na plenitude da sua força, julga estar à prova de tudo, a idade em que menos se poupa e menor se resguarda. Se pusermos em paralelo com esta condição da idade o facto de o agente da gripe atacar fortemente o sistema nervoso – sistema nervoso da vida de relação (dores, astenia muscular, paresias, etc.) e o sistema nervoso da vida orgânica (perturbações respiratórias, circulatórias, gastrointestinais, fenómenos bulbares) – facilmente poderemos ver nele a razão provável desta predileção da doença pela idade adulta. Em compensação, quando sucede ela atacar um velho ou uma criança, o seu prognóstico é mais severo, tanto mais severo quanto mais idoso é o velho e nova a criança, sobretudo tratando-se das formas pneumónica e broncopneumónica. Mas atacado da doença, o que convém fazer? Visto que a forma mais segura de evitar a gripe é evitar o contágio, a primeira coisa a fazer é isolar o doente. Ótimo seria hospitalizar todos os doentes. Somos mesmo da opinião que, não só para esta, como para quase todas as doenças, a clínica domiciliária é uma forma atrasada de assistência médica. Infelizmente, a assistência hospitalar encontra-se muito atrasada e não há remédio senão tratar os doentes em suas casas. Isolado o doente e metido na cama, no seu quarto não entra senão quem tem de tratar dele. O quarto, cuja temperatura não deve ser inferior a 18 graus, será arejado durante o dia, evitando-se que o vento vá diretamente à cama do doente. Quanto a medicamentos que podem ser usados por iniciativa do doente, só estão nessas condições as infusões quentes, sudoríficas, diuréticas, de borragem, flor de sabugueiro, limão, tília, etc. – as quais podem ser levemente alcoolizadas, as cataplasmas sinapizadas, os escalda-pés, a amónia ou os seus sais e o quinino. Tudo o mais, antipirina, aspirina, pós de Dóver, etc., são coisas que não devem ser empregadas senão por prescrição médica. Deve-se ter sempre presente que é necessário que o doente beba abundantemente 3 a 4 litros nas 24 horas, quente de preferência, seja leite, caldo, água fervida, água mineral de mesa, grog, chá, café, cacau, limonada vinhosa, chá de limão, tília ou qualquer outra bebida que se tome sem repugnância. Convém alimentar bem o doente, mas com alimentos líquidos ou em puré. Os ovos, o sumo de carne, o vinho do Porto ou outro devem entrar na alimentação. Mesmo às crianças, em certos casos, é conveniente dar umas colherinhas de chá de vinho do Porto. Mas é preciso não abusar. O álcool aqui é um remédio e, como todos os remédios, deve ser suspenso logo que deixe de ser necessário. A desinfeção dos escarros e dos lenços não deve ser esquecida. Mas o ponto mais importante do tratamento, no que respeita à prevenção das complicações bronco-pulmonares, é a antissepsia da boca e garganta, fossas nasais e mesmo ouvidos, sobretudo nas crianças, em que a otite é uma complicação frequente da gripe. Nas narinas e nos ouvidos, a coisa é simples: o óleo eucaliptolado, gomenolado, resorcinado ou mentolado (evitar este último nas crianças pequenas) deita-se nas fossas nasais, a glicerina fenicada nos ouvidos 3 ou 4 vezes por dia. A desinfeção da boca e da garganta é mais difícil. Primeiro, convém limpar a seco: a língua com uma barba de baleia esterilizada pela fervura, os sulcos gengivais, os dentes por fora e por dentro com algodão da gaze esterilizada montada sobre uma pinça ou enrolada em torno de dois dedos. Em seguida, faz-se a mesma operação com algodão ou gaze molhada numa mistura de água de Vidago ou glicerina e, mais além, procede-se à limpeza da garganta e das amígdalas. Finalmente, faz-se o doente bochechar e gargarejar. Em certos casos, nas crianças e nos doentes que não podem gargarejar, a garganta será lavada por meio de um irrigador. Esta limpeza minuciosa será feita, conforme os casos, 2 a 4 vezes. Nos intervalos, pode-se fazer uso de bochechos e gargarejos com qualquer dos muitos antissépticos aconselhados. Na falta de água de Vidago, poderá empregar-se um soluto de bicarbonato ou borato de soda, a água de Labarraque que tem a vantagem de limpar e desinfetar ao mesmo tempo, o que também se dá com a mistura de água oxigenada e borato de soda. Nas crianças, devem evitar-se os antissépticos em que entra o ácido fénico. É preferível o soluto de timol, a água de Labarraque ou a água oxigenada.
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Data
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1918
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Data de emissão
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31 outubro 1918
31 outubro 1918
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É parte de
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Vimaranense, 31/10/1918, nº 154, p. 1
Gripe Espanhola