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Descrição
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Para obstar ao contágio da epidemia que assustadoramente assentou arraiais entre nós, resolveu a autoridade administrativa, a bem da saúde pública, logo de princípio, mandar fechar os templos aos domingos e dias festivos da igreja e proibir os espetáculos. Mais tarde, e a bem, também, da saúde pública, ordenou que os enterramentos se fizessem de noite, naturalmente para não assustar os passarinhos que de dia nos mimoseiam com os seus gorjeios. Se a primeira resolução foi um pouco fora de propósito, e bem mal pensada, porque quem se sente incomodado não vai assistir aos atos religiosos para as igrejas, nem aos espetáculos para os teatros, a segunda foi de resultados negativos e até contraproducentes. O sr. Administrador do concelho sabe muito bem que em Guimarães, como afinal em todo o país, há o costume de acompanhar ao cemitério as pessoas queridas, e também as visitas de pêsames a casa dos doridos. Não deve desconhecer também que é de uso mandar, cedo, os cadáveres para as igrejas, onde se realizam os funerais, e onde costumam concorrer as pessoas que desejam prestar as suas homenagens às pessoas de sua estima a quem chega a vez de dar contas a Deus. De forma que, fazer estacionar em suas casas, até às 8 ou 9 horas da noite, os cadáveres, é bem mais perigoso para a saúde pública do que atravessarem as ruas de dia os préstitos fúnebres. Procurando evitar o horror que causam esses préstitos fúnebres de dia, avolumam-se de noite, porque ainda desperta mais a atenção o lúgubre espetáculo do acompanhamento. E essas pessoas que acompanham, a pé ou de carro, porque é necessário que alguém acompanhe os cadáveres, não se exporão ao perigo muito mais de noite que de dia? Quer-nos parecer que sim, e que não haverá um único médico que seja capaz de nos provar o contrário. (…) Ora tendo sua ex.ª emendado a mão quanto ao primeiro caso do encerramento das igrejas e das casas de espetáculos, é bem que a emende, e já, quanto aos enterramentos de noite, consentindo, mandando e ordenando até que eles se façam a qualquer hora do dia, e deixando isso ao critério de cada um dos doridos. E fazendo isto, não nos parece que faça grande coisa. No Porto, onde grassa a mesma epidemia, têm funcionado as casas de espetáculos todos os dias, não se encerraram os templos, e lá se estão fazendo os enterros de dia, não nos constando que isso tenha dado causa ao desenvolvimento da epidemia. – Depois de composto o que aí fica fomos informados de que se achava afixado um edital que proíbe os enterramentos de noite, ordenando que eles se façam de dia. É tão louvável este procedimento da autoridade administrativa que não podemos deixar de lhe manifestar o nosso agrado por tal ato.
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Data
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1918
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Data de emissão
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31 outubro 1918
31 outubro 1918
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É parte de
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Ecos de Guimarães, 31/10/1918, nº 236, p. 2
Gripe Espanhola