A Gripe Espanhola em Guimarães

Ricardo Jorge (1858-1939)

Manecas e a pneumónica

Testemunho de Joaquim Alberto Pires de Lima sobre a epidemia gripal numa aldeia do Minho.

A 31 de agosto de 1918, a Direção Geral de Saúde, chefiada por Ricardo Jorge, anuncia oficialmente a existência de um novo surto epidémico de gripe, classificando-o como “influenza pneumónica”. Não obstante os estudos realizados após a epidemia de 1889-90, a doença continua a surpreender e frustrar a comunidade científica com o seu poder de contágio, mas, sobretudo, porque a variedade de sintomas, graus de intensidade e durabilidade impossibilitam o diagnóstico seguro e a fixação de um tratamento efetivo e eficaz. Consequentemente, aposta-se na prevenção, centrada na higiene do corpo e dos espaços, e na assistência aos atacados em hospitais de isolamento.

Em Guimarães, no final do mês de setembro, a imprensa local faz soar o alarme. A gripe broncopneumónica, que já martirizava a população de Barcelos, Vila Real e Amarante, provocando inúmeras mortes, faz-se também presente na cidade. Atacando de improviso, atuando com rapidez, indiferente a géneros, idades e classes sociais, e altamente mortífera, a epidemia enche os hospitais de doentes, pondo à prova a sua capacidade assistencial. Em busca da cura vêm não apenas os enfermos da cidade, mas também das freguesias rurais, não obstante a relutância de muitos, que preferem arriscar o tratamento em casa.

A gravidade da situação exige a adoção imediata de medidas para conter o alastramento da epidemia: reabre-se o hospital de isolamento de Santa Luzia; inibe-se a celebração de atos religiosos nas igrejas e a peregrinação anual ao Santuário da Penha; proíbem-se os cortejos fúnebres e o transporte de cadáveres ao cemitério municipal faz-se somente depois das 20 horas; as casas de espetáculos são obrigadas a fechar portas; atrasa-se a abertura de todas as escolas oficiais e particulares; impede-se a realização da feira; ordena-se a remoção de todos os suínos do centro da cidade e a obrigatoriedade de limpar e desinfetar os prédios que tenham contacto com esgotos.

Mas, afinal, o que é a pneumónica? Como se manifesta? Como se cura?

Informa-se na imprensa que se trata de uma doença altamente contagiosa, que incide sobre ambos os géneros, sem olhar à idade, profissão ou condição social. Os principais sintomas incluem febre elevada, inflamação da traqueia, rouquidão e tosse rebelde, podendo os mesmos variar consoante a gravidade de cada caso. O tratamento passa pelo isolamento do doente, preferencialmente num quarto com uma temperatura ambiente não inferior a 18 graus e bem arejado durante o dia. A sua dieta alimentar assenta em alimentos líquidos ou em puré e obriga à ingestão de variadas infusões quentes (sudoríferas, diuréticas), de leite, água fervida, café e vinho do Porto. Para evitar complicações pulmonares, é preciso não esquecer a higiene da boca e garganta, fossas nasais e ouvidos, no contexto de uma higiene geral do corpo. Uma vez em contacto com um doente, desaconselha-se a transpiração, o estar em jejum ou próximo de uma fonte de calor para evitar a absorção das “emanações infeciosas”. Publicitam-se ainda perfumes desinfetantes e purificadores de ambiente para eliminar os “miasmas deletérios”, numa altura em que a autoridade administrativa pede aos regedores das freguesias do concelho o envio de remessas de pinheiro e eucalipto para se queimarem nas ruas e largos da cidade.

Ao terminar o conflito mundial que provocara tanto luto e miséria, constata-se que o flagelo da gripe broncopneumónica havia também feito inúmeras vítimas no concelho de Guimarães: 334, segundo a Estatística do Movimento Fisiológico de 1918. Este número teria sido bem maior, não fosse a importante rede de solidariedades que se montou para dar resposta a tantas situações aflitivas: a administração do concelho, com o apoio de várias individualidades da terra, equipou o hospital de isolamento e subvencionou o internamento dos órfãos da epidemia no Asilo de Santa Estefânia e na Oficina de São José; o Estado fez chegar um subsídio que foi dividido pelo hospital de Santa Luzia e os doentes que residiam na cidade; a Associação de Bombeiros Voluntários organizou, juntamente com a banda do Regimento de Infantaria 20, a Nova Filarmónica Vimaranense e o grupo musical dos Guizes, um bando precatório a favor do “hospital de pneumónicos” e dos doentes pobres do concelho; um grupo de benfeitores criou a Sopa Económica Vimaranense, que oferecia gratuitamente uma refeição diária a 100 crianças pobres da cidade; a imprensa local lançou subscrições públicas para auxiliar os doentes com a pneumónica.

A gripe na imprensa vimaranense

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