-
Descrição
-
Festa do Senhor da Livração, do oratório da rua Nova das Oliveiras, em que houve grossa pancadaria entre os partidários das duas músicas da cidade, Lucínio Fernandes da Trindade e D. Jerónimo Romão, espanhol. Eis a narração da "Religião e Pátria", (mas tenha-se em vista que o seu redactor, João Pinto de Queirós, fazia parte da capela Lucínio e era adversário político do administrador do Concelho, dr. Luís Augusto Vieira): - "Uma senhora da rua das Lajes, tendo devoção com uma imagem de Cristo que se venera num oratório daquela rua, mandou fazer-lhe uma festa na igreja de S. Sebastião, e convidou a música do sr. D. Jerónimo para a acompanhar depois a mesma imagem até ao oratório. Alguns outros moradores da rua, constituídos em comissão, promoveram donativos para darem maior explendor à solenidade e convidaram a música do sr. Lucínio, para tocar no local do oratório. Como se sabe, há rixas entre as duas músicas, e os partidários da música do sr. D. Jerónimo quiseram ver naquilo um acto acintoso, e foram queixar-se à autoridade, que mandou inquirir do caso. Não sabemos que ordens deu depois a autoridade; o que sabemos, e o que presenciou toda a gente que ali estava, foi, que, quando a música do sr. D. Jerónimo ia acompanhando o préstito, os empregados da administração e o regedor substituto da freguesia tentaram fazê-la parar no meio da rua das Lajes, decerto como medida de prevenção, para evitar que ao aproximar-se da outra, que estava ao pé do oratório, houvesse algum conflito. "Rompeu então a anarquia mais desenfreada. Às vozes de - abaixo, abaixo - caíram os instrumentos dos músicos sobre as cabeças dos empregados de polícia, agitaram-se no ar bengalas e guarda-chuvas, e entre uma gritaria infernal e insultos de toda a ordem, foram os empregados arrastados pela rua abaixo. Preparava-se, como se vê, uma cena de terror, se não fosse a cordura e a disciplina com que os músicos da direcção do sr. Lucínio se portaram (vide a minha nota no princípio desta notícia), sem arredarem um passo do sítio onde estavam, e como se não vissem que tudo aquilo era uma provocação a eles. Mas onde está a força da autoridade, que se deixou assim ludibriar publicamente na pessoa dos seus empregados?!... Seria porque foram os amigos da autoridade que promoveram aquela desordem, que ela se deixou desacatar assim impunemente?!... Para que veio depois a mesma autoridade em pessoa, escoltada pelas baionetas do destacamento, se não havia de castigar os que estavam ali para promoverem a desordem, os que a provocaram, e os que tinham insultado e maltratado os seus empregados?!... Quem havia de ser o responsável pelas consequências que aquele conflito podia ter, se não fora a prudência com que se houve o sr. Lucínio e a sua gente?!... E porque não havia de ser assim, se foi dos amigos dela que saiu a doutrina que levanta a anarquia a princípio de autoridade, e a desordem a condição de força?!... Semearam ventos, vão colhendo as tempestades".