Efeméride de 28-03-1842

Descrição
Em a "Revista Universal Lisbonense" nº 32, de 12 de Maio de 1842, lê-se que a 28 de Março: "pelas nove horas da manhã, João Baptista, do lugar da Cruz do Requeixo, freguesia de Travassos, julgado de Guimarães, indo para a freguesia de S. Lourenço de Sande, do mesmo julgado, no monte chamado as Pelícias ou Fojo, limites da freguesia de Souto, próximo à de Gonça, em um atalho de estrada daquele monte, viu um homem com uma arma caçadeira traçada no braço, que saíra de entre uns penedos e se dirigia para ele, e a poucos passos de distância lhe disse - faça alto senão morre - Ele pára, julgando ser algum ladrão, pelo ser próprio para o intento. Mas o homem armado lhe pede por favor que o acompanhe. João Baptista assusta-se e lhe responde que não é necessário ir com ele, sendo para lhe tirar o que leva, porque ali mesmo lho dava. Não quero nada do que leva, quero que venha comigo, replica o agressor - e depois de alguma porfia o obrigou a acompanhá-lo. Caminham ambos para os penedos de onde o primeiro saíra. Chegam: entre eles ..... está uma mulher deitada, coberta com um capote azul: - um cão de fila grande com um corrente de ferro ao pescoço - mais distante uma cavalgadura aparelhada, e sobre o albardão uma pele branca. Chegados que foram disse o condutor ao conduzido - que lhe havia de baptizar uma criança: - e logo foi buscar água que ali havia perto, na capa do seu chapéu, e voltando, mandou-lhe que tirasse a criança que estava debaixo do capote, - e pegando João Baptista, diz que vira ser uma menina muito pequenina nascida há pouco, apesar de não ver vestígio algum de ter sido ali o seu nascimento. Que então lhe dissera o desconhecido - baptize essa criança e ponha-lhe o nome de Joaquina, a tudo satisfez: acabado o acto, disse-lhe João Baptista, que de boa vontade levaria a criança e a daria a criar, mas o outro lhe respondeu que não, que havia de ali acabar o seu mundo, e que escusava de andar a passar fados. Ditas estas palavras, toma-lhe a menina, lança-a ao cão de fila, que estava próximo a ele: João Baptista diz que vira a criança na boca do cão, mas que não pode afirmar se ele a tragou, porém crê que sim. Que ele continuára logo a sua jornada apesar de muito assustado: que voltando das duas para as três da tarde, e chegando próximo à igreja de Gonça com tenção de ir participar ao Abade o sucedido, somente para saber se aquela alma ficára cristã, do que estava em dúvida, o Abade lhe respondeu que sim. Que aparecendo ali o regedor da freguesia lhe contára o caso, o qual logo mandára a reunir os seus cabos, e com eles e mais o mesmo João Baptista foram ao sítio do acontecido, já próximo à noite quando lá chegaram, e nada encontraram, nem vestígio nenhum do sucesso, e só trilho de ali ter estado gente. - E conclui dizendo que as autoridades foram logo sabedoras do facto, que mandaram fazer as inquirições do costume e que até hoje (12 de Maio) se não deu com o malfeitor". A mesma "Revista Universal Lisbonense" nº 35 refere que o seu correspondente de Ponte de Lima em 26 de Maio lhe diz: "Ninguém agora nesta Vila acradita no facto: - porque com um idêntico e mesmíssimo mutandis entretiveram as fadas nesta Vila, há anos, a credulidade popular: e porque nesse mesmo tempo vivia aqui, onde é casado, esse que agora foi denunciante e testemunha do mistério de Gonça; cujo carácter e precedentes não fazem a história provável. Mas esta carta não trás por assinatura mais do que Um amigo da verdade".