Efeméride de 04-04-1842

Descrição
Continuação do caso passado em Gonça a 30 de Março findo (vide este dia). - O administrador deste Concelho, José Inácio de Abreu Vieira, em 4 de Abril, escreveu uma carta ao "Periódico dos Pobres do Porto", da qual é extracto o seguinte: - "Vossa Senhoria está horrorizado com o sucesso relatado no Periódico dos Pobres, e não está mais que eu estive quando tal nova veio ao meu conhecimento. O relatório é exacto, com a diferença que o homem não viu que o cão tragasse a criança, mas tão somente o acto de a arremessar ao cão. Este homem indo consultar o Abade de Gonça, foi encontrar-se por acaso com o regedor, que na companhia dele foi ao sítio acompanhado de cabos de polícia; mas era noite, e por isso conservou-se o mesmo homem em custódia até ao outro dia, remetendo-o à minha presença com a participação do sucesso e declaração de que não tinha encontrado vestígio algum. Perguntei ao homem, e notei que ainda não estava em sossego, porém apesar da sua perturbação ele pode dar os sinais do criminoso, ou suposto criminoso, dos seus vestidos, dos da mulher, do aparelho do cavalo e do cão. Fui logo ao lugar do delito para ver se se encontrava de dia algum vestígio dele, e só vi indícios de que naquele lugar tinha passado uma cavalgadura e dele tinha saído. Expedi logo as ordens para todas as freguesias constantes para serem inquiridos os moradores das estradas que pudessem comunicar com aquele monte, levando para cada um os sinais do criminoso e seu séquito, e recolhendo-me a esta Vila fiz partir próprios com iguais providências para os Concelhos de Braga, Póvoa de Lanhoso, Vieira, Fafe, Cabeceiras e Celorico de Basto, dando parte ao administrador geral do sucesso e das providências que tinha dado, recomendando a todos os administradores a classe dos marchantes ou carniceiros. As minhas diligências produziram o efeito desejado, porque me consta, posto que extra oficialmente, que o administrador de Fafe descobrira pelos sinais quem era o reputado criminoso; e ao mesmo tempo soube que o facto não tinha aparência de crime, mas antes de prestígio usado para aqueles sítios, e vem a ser "que quando algum cônjuge não vinga filhos, para os poder vingar torna-se necessário que seja baptizado o recém nascido daquela forma, ou no ventre de sua mãe antes mesmo de nascer". - O facto é que tendo administrador de Fafe falado em uma companhia no meu ofício, um dos concorrentes àquela companhia declarou que assim fora baptizado, e supôs-se ser aquele caso idêntico, visto que o reconhecido não usou de disfarce algum. Parece que o suposto criminoso era marchante.