Efeméride de 21-05-1858

Descrição
Segundo dia das festas nesta cidade pela chegada da Rainha ao Reino. De manhã, ao meio dia e ao anoitecer, repetição da salva real com fogo de artifício em frente da Câmara, música pelas ruas e repiques nas torres; jantar à tropa; jantar aos presos e inválidos a expensas do juiz de direito; à noite iluminações, como as da noite antecedente e acrescendo baile da Sociedade Recreativa Vimaranense, às nove da noite, na casa de Francisco António da Silveira, dos Pombais. Descrição do baile em que surgiu a caridosa ideia de fundar o asilo da infância desvalida: "Terminadas as dificuldades com a nobre e generosa anuência do Exmº Francisco António da Silveira, às nove horas da noite reuniram-se os sócios da Sociedade Recreativa Vimaranense e suas famílias na casa dos Pombais. A iluminação começava às portas de ferro, seguia pela longa rua de elevada murta, largo da entrada, escadório, pátio, janelas e fachada da mesma casa, causando de longe, a vista mais agradável, mais deslumbrante. Às 10 horas estavam as salas cheias; e então, reunidas as senhoras na terceira sala do lado que olha para o sul, mais que as outras ricamente mobilada, e toda forrada de damasco, se descobriu, ao som do hino Real, o retrato de Sua Majestade el-Rei, colocado sobre o trono, e a luminosa legenda - Pedro Estefânia - que foi saudado com entusiásticos vivas dentro e fora do edifício pela multidão de povo que aqui se achava. Não longe das 11 horas deu-se o chá, que foi servido com magnificiência. Findo este acto, o ilustre e digno sócio Francisco António de Almeida (meu professor de 1ª instrução; que bom coração! que alma tão grande aos olhos de Deus!!! J.L.F.) fez uma breve alocução, e a comissão promotora distribuiu-a impressa, a qual é a seguinte: Exmªs Srªs, Exmºs e Ilmºs Sr.s o objecto que motivou esta nossa reunião, dando com ela um sinal de regozijo, é digno de uma demonstração mais sublime, mais sólida, e que eternizando-o, eternize juntamente os nomes de todas as damas e cavalheiros que estão presentes, e de todos aqueles que para ele concorrerem. A nossa demonstração de regozijo na actualidade, é limitada ao que o tempo e as nossas poucas forças permitiram se fizessem; mas é uma demonstração que morre com a retirada para nossas casas. A demonstração de regozijo que eu tenho a honra de vos propôr, pelo mesmo objecto que aqui nos trouxe, é o brasão mais brilhante com que podeis adornar as fronteiras das vossas habitações; é um brasão que deslumbra e aniquila quantos brasões tem havido, há, e possam haver até à consumação dos séculos - é o brasão do "Amor de Deus e do Próximo" brasão que nada deixa a desejar. Chora-me o coração, e os vossos não hão-de chorar menos, ao ver a compungente nudez com que imensidade de inocentes dormem ao rigor das estações, sem abrigo, sem vestuário, sem sustento e sem educação. Torna-me a verter lágrimas o coração, e os vossos também hão-de verter, ao ver o decrépito velho, arrastando um corpo quase inanimado por essas ruas, para esmolar de porta em porta o amargo pão com que vai amparando esses poucos dias de existência que lhe restam, e que tão penoso se lhe torna pela sua miserável posição. Que satisfação, que glória não caberá aos promotores de um Asilo para infância desvalida, ou para a mendicidade! Como não ficará eternisado um tão fausto dia! Que bençãos não derramará o Senhor sobre seus instituidores que se lembraram dele, lembrando-se do próximo. Promovamos, pois, um Asilo tão pio; instituamos por sua protectora Sua Majestade F. a Srª D. Estefânia Rainha de Portugal, e seja este pio estabelecimento denominado "Asilo de Santa Estefânia Amor de Deus e do Próximo". Nesta respeitável companhia há cavalheiros digníssimos para formar uma Comissão Promotora, a fim de levar a efeito, dando impulso a um tão pio estabelecimento. Avante, pois, com tão sublime empresa! É uma instituição piíssima. Estou certo que a nenhum dos abastados proprietários e capitalistas, em que esta terra abunda, há-de tremer a mão ao dar a esmola para um tão justo fim; pelo contrário, seus caritativos corações hão-de receber o pasto mais agradável de toda a sua vida. Se este meu projecto merecer a vossa benévola aprovação, desde já peço se nomeie a comissão. Como me não posso oferecer com meios pecuniários, ofereço-me para gratuitamente ensinar, enquanto no Asilo não houver Mestre, seis dos primeiros meninos que entrarem, além de dois que tenho desde que abri o meu estabelecimento. Francisco António de Almeida. O pensamento foi recebido com aplausos gerais, mas a nomeação da comissão ficou transferida, não obstante os esforços de um mui distincto cavalheiro, que não sofre dilação nas obras meritórias. Perto da meia noite começou o baile, terminando depois das cinco e meia da manhã, etc. etc. - De "A Tesoura de Guimarães", nº 172 -