-
Descrição
-
A comissão criada aqui para celebrar o tricentenário de Camões principiou as suas solenidades neste dia por uma missa rezada na Colegiada, em que foi celebrante o Padre António José Ferreira Caldas Júnior, pelas 11 horas da manhã. A esta missa assistiram por convite as seguintes corporações, todas com os seus hábitos, e grandes uniformes: Cabido, Câmara Municipal, corpo administrativo e judicial, autoridades militares à frente do destacamento aqui estacionado, ordens terceiras e Misericórdia, direcções dos asilos, bancos, associações e companhia de Vizela, assembleia vimaranense e corpos de bombeiros municipais e voluntários, imprensa, vice-consulado de Espanha, etc. Terminada a missa a comissão dos festejos, acompanhada por todas estas corporações, dirigiu-se à casa da Câmara e estando aí reunidos em sessão solene os vereadores, foi-lhes apresentada por parte da comissão e lida pelo Conde de Margaride uma mensagem, na qual a mesma comissão oferecia ao município dois exemplares de uma tradução de alguns cantos dos Lusíadas em francês pelo Duque de Palmela e revistos pela madame Stael; edição que a mesma comissão mandara fazer para distribuir neste dia em honra do grande épico. Fez-se dela uma tiragem de 200 exemplares e 12 de mais luxo, sendo aqueles numerados e distribuídos pelos assinantes, e dos segundos oferecidos exemplares ao Rei, a D. Fernando, ao imperador do Brasil, à Câmara de Guimarães, ao dr. Pereira Caldas, etc. Dos outros também se mandaram alguns às bibliotecas e do Brasil. Na mesma mensagem se pedia à Câmara, que um dos largos ou ruas de Guimarães fosse baptizada com o nome de Camões, o que se resolveu logo por unanimidade, sendo escolhida para isso a antiga rua Nova das Oliveiras. Em seguida por proposta (obra do Padre Caldas, que era cunhado do proponente) do vereador António Joaquim de Melo também se resolveu, que ao Largo do Pelourinho se pusesse o nome de Largo do Trovador, em comemoração do primeiro trovador português, Manuel Gonçalves, nascido no antigo burgo de rua de Couros. Terminada a sessão à meia hora da tarde, saiu daí um bando Real com as bandeiras nacional e da cidade, precedido de tambores e duma banda marcial, convidando os habitantes de Guimarães a iluminarem as suas casas e a darem todas as demonstrações de regozijo durante os festejos. À uma hora foi dado pelo Conde de Margaride, mas em nome da comissão, um jantar aos presos. De manhã, ao meio dia e à noite, houve repiques de sinos, salvas de foguetes, percorrendo as ruas da cidade uma banda marcial. Neste mesmo dia à noite não houve no jardim do Toural a iluminação projectada por causa da chuva. - Na noite do dia 11 e como continuação dos festejos houve no teatro espectáculo de gala, representando-se pela vez primeira o drama original do nosso Cónego dr. António Joaquim de Oliveira Cardoso, "Lágrimas e Risos" em três actos. Nos intervalos recitaram-se algumas poesias, produções literárias de vimaranenses, entre os quais muito se distinguiu o dr. Pereira Caldas, que veio de propósito de Braga. No fim da poesia - bisada - foi-lhe oferecido por dois membros da comissão o exemplar aludido. O teatro achava-se elegantemente adornado com ramagens e Corôas de carvalho e louro e bandeiras. No camarote central da segunda ordem estava o busto de Camões, em gesso, entre cortinados azuis e forros brancos, lendo-se em escudetes postos sobre as colunatas de cada camarote as datas mais notáveis da vida de Camões e na primeira ordem em idêntico lugar os nomes de 14 poetas e literatos notáveis vimaranenses. Nos intervalos tocava cá fora a banda marcial. O saldo deste espectáculo, deduzids as despesas, que foram grandes, reverteu em benefício das obras da Penha, que por esse motivo iluminou nessa noite o cimo dos penedos e deu salvas de morteiros. - Na noite do dia 12 houve no jardim do Toural uma bem disposta iluminação e na praça nova do mercado fogo do ar. Tocava no coreto do jardim uma banda marcial, havendo numeroso concurso de povo até à uma hora da noite. Também se iluminaram algumas casas, sobressaindo a da Câmara. Por ocasião do fogo, perto das 11 horas da noite, uma faúlha incendiou um molho de foguetes, que feriram uma mulher gravemente num tornozelo, a um rapaz mudo nas costas e deslocaram umas pedras do muro do quintal do Proposto junto ao portal que dá entrada para ele, onde foi a explosão. A comissão dos festejos foi composta de rapazes de Guimarães, que constam da edição, dos quais o Padre António Caldas era Presidente, o qual cedeu o lugar depois que a ela se agregaram o Conde de Margaride, Conde de Vila Pouca, Barão de Pombeiro e Francisco Sarmento. - Notícia feita pelo Padre António José Ferreira Caldas Júnior -