Num dos últimos dias do ano de 1853, Maria Alves de Abreu Pereira, mulher de Jacinto Gomes de Oliveira, trouxe ao mundo, numa velha casa de proprietários abastados, a casa dos Abreus, em Bugalhós de Baixo, freguesia de S. Vicente de Mascotelos, um rapaz, baptizado com o nome de João que, nos tempos de estudante no Liceu de Braga seria conhecido como o Santo Amaro (por referência à terra de onde era originário), e que ficaria para a posteridade como o Abade de Tagilde.

João Gomes de Oliveira Guimarães notabilizou-se como historiador, arqueólogo, numismata, epigrafista, diplomatista, genealogista, orador, político, escritor e jornalista. Foi candidato a deputado, e perdeu; exerceu funções de vereador e de presidente da Câmara de Guimarães. Podia ter sido bispo, mas não quis. O seu nome ficou ligado à Sociedade Martins Sarmento e ao ressurgimento dos estudos de história local de Guimarães. A sua obra mais marcante é uma impressionante compilação de documentos sobre o período medieval vimaranense, os Vimaranis Monumenta Historica.

Em 1867, depois de ter começado os seus estudos em Coimbra, matriculou-se no Liceu de Braga, onde será conhecido pelo apelido de Santo Amaro. Como estudante, teve um percurso brilhante. Terminado o liceu, em 1872, inscreveu-se no curso de Teologia do Seminário de Braga, que concluiu com sucesso em 1875. No ano seguinte, recebeu as ordens de presbítero. Os tempos que se seguiram, dedicou-os ao aprofundamento dos seus estudos, nomeadamente no campo da História, tendo-se debruçado acima de tudo sobre a paleografia e a diplomática, adquirindo ferramentas de trabalho que lhe seriam de grande utilidade nas suas futuras incursões na investigação histórica. Transcorridos onze anos após a sua ordenação, tomou posse na paróquia de Tagilde, onde permaneceria um quarto de século, até à sua morte em 20 de Abril de 1912.

Na política, um vencido

O Abade de Tagilde era praticamente um desconhecido quando, no Outono de 1889, se apresentou aos eleitores como candidato a deputado pelo círculo de Guimarães, em representação do Partido Progressista, então no poder. O seu adversário seria o deputado por Guimarães eleito nas eleições anteriores, João Franco Castelo Branco, candidato pelo Partido Regenerador, das fileiras da oposição ao governo de José Luciano de Castro. Os regeneradores gozavam de grandes apoios em Guimarães, e João Franco, que era natural do Fundão, usufruía já de assinalável popularidade entre os seus eleitores. A campanha eleitoral foi agitada, sucedendo-se as acusações e os remoques entre ambas as candidaturas. A imprensa local, com destaque para o Comércio de Guimarães, que assumia uma posição de apoio explícito a João Franco, encarregava-se de zurzir na candidatura do Abade de Tagilde. Pelas ruas de Guimarães, começou a cantarolar-se:

O Abade de Bogalhós
Quer jogar as bugalhinhas...
Quer deixar a residência?
Ora toma Mariquinhas!

O Abade de Bogalhós
Joga agora as bugalhinhas...
Queria ser deputado?
Ora toma Mariquinhas!

Passadas as eleições, lá ficou João Franco feito deputado por Guimarães, pela segunda vez, e João Gomes de Oliveira Guimarães, começava a revelara imagem de um político sempre forte, mas também um vencido, tal como seria descrita, mais tarde, por um antagonista.

O Abade de Tagilde nunca teve grande simpatia por João Franco. Martins Sarmento sabia-o, como se pode inferir de uma passagem de uma carta datada dos princípios de Setembro de 1896, aquando de uma estadia do arqueólogo na Póvoa de Varzim:
Aqui estou eu nesta boa terra, onde o vento e o pó entram em plena ditadura. Qualquer destas coisas parece a pessoa do nosso Franco. Tão intolerável é isto que até os peixes fugiram.

Anos mais tarde, Franco preparava-se para indicar o Abade de Tagilde para bispo. Um seu correligionário, José Maria de Freitas Cardoso, que a si próprio se define adversário de sempre da acção política do padre vimaranense, aconselha-o a aceitar a indigitação para empunhar o báculo de bispo, segundo ele próprio conta num texto publicado no jornal O Progresso de Paços de Ferreira, posteriormente transcrito no Comércio de Guimarães. O Abade recusa, argumentando: habituei-me de tal forma à Sociedade Martins Sarmento e à minha freguesia que destas entidades tão queridas não me posso separar.

Um dia, quando corria o ano de 1897, Martins Sarmento referiu-se assim à actividade política do Abade de Tagilde: eu faço votos sinceros para que a pena de Talião se realize, mas a valer, e que um Abade qualquer pregue com o meu bom amigo numa poça bem funda, tirando-lhe de vez este vício da política, que lhe há-de dar desgostos pela rasa velha. Política que se vê obrigada a fraternizar com quanto patife há por essas aldeias, contanto que o patife tenha à sua disposição alguns votos...

A vontade de Sarmento (que não escondia o seu desejo de que o Abade se dedicasse menos à política e mais à arqueologia) não se concretizaria. O Abade abandonou definitivamente os seus projectos de exercer a política a nível nacional, investindo na intervenção municipal. Entre 1902 e 1904 foi vereador da Câmara Municipal, assumindo a sua presidência desde 1905 até à instauração da República em 5 de Outubro de 1910. Da sua acção ficaram conhecidos os projectos de renovação urbanística que apresentou em sessão municipal em Abril de 1906, onde se encontravam propostas para prosseguir com a exploração da água da Penha para abastecimento público, para a construção de uma nova cadeia; para o alargamento da Praça de S. Tiago, com a demolição de todos os prédios situados a nascente e a norte e a eliminação da Viela dos enjeitados; o alargamento da rua do Espírito Santo, após a demolição da cadeia velha, permitindo uma melhor ligação entre os dois largos; o melhoramento do Largo do Toural; o alargamento do Campo da Feira; o prolongamento da Rua de Paio Galvão; a continuação da estrada que ligava a rua de Santo António com a estrada distrital n.º 17.

Não seria, porém, a acção política do Abade de Tagilde que lhe granjearia um lugar na memória dos vimaranenses. Em Outubro de 1910, a revolução republicana encontrava-o à frente dos destinos do Município. Algum tempo depois, ao dar a notícia do falecimento do Abade de Tagilde, o semanário republicano Alvorada de 25 de Abril de 1912, traçava-lhe o perfil, descrevendo-o como uma figura que teve destaque na política local durante o regime findo, servindo por diversas vezes na presidência do nosso município. Não é todavia sob este aspecto que o rev. Pároco de Tagilde merece destaque, pois que saibamos não deu provas de melhores virtudes que muitos dos seus iguais na liça. Já outro tanto não sucede encarando-o como homem de estudo, que o foi, distinto em matéria de investigações históricas.

Percursor da História Local

Antes de tudo o resto, o Abade de Tagilde foi um homem da Sociedade Martins Sarmento, à qual pertencia desde os tempos da sua fundação, tendo sido elevado, pelos serviços prestados à instituição, à condição de sócio honorário, no início da década de 1890. Esteve dez anos na Direcção da SMS, tendo sido o seu presidente entre 1902 e 1905.

Com transcurso do tempo, e à medida em que Francisco Martins Sarmento, progressivamente debilitado pelas doenças que o iam minando, via reduzida a mobilidade que lhe sustentou a fama de incansável calcorreador de montes à cata de velharias arqueológicas, muitos vezes é o Abade que o substitui na função de inspeccionar achados arqueológicos. Nos últimos anos da existência de Sarmento, o Abade tornou-se o seu braço direito, tomando a seu cargo, entre outros, os trabalhos da organização do Museu Arqueológico. Depois da morte de Sarmento, por comissão da Sociedade, lançará mãos à tarefa de organizar os manuscritos sarmentinos e de iniciar a sua publicação na Revista de Guimarães, com as páginas dos apontamentos referentes às campanhas de escavações da Citânia e do Sabroso. O apreço em que Sarmento tinha o trabalho deste seu colaborador infatigável está bem presente no modo como, numa carta do início de 1896, exprimiu a sua alegria pelo modo como o Abade tinha resolvido um problema de que o incumbira: Vou logo beber à sua saúde uma dúzia de vezes, ainda que me emborrache.

A João Gomes de Oliveira Guimarães se deve o renascimento dos estudos da história local de Guimarães. Até às suas pesquisas, todos os trabalhos que se poderiam encontrar transcritos em letra de forma seguiam as pisadas das Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, obra dos finais do século XVII, da autoria do Padre Torquato Peixoto de Azevedo, que deve muitos dos seus créditos mais à tradição fantasiosa de reminiscências cujas origens se perdem na obscuridade dos tempos, do que ao rigor histórico, que bebe a sua credibilidade nos documentos que compulsa. Autores reputados, como Carvalho da Costa, na sua Corografia, ou o Padre Caldas, nos seus Guimarães, Apontamentos para a sua História, seguiram quase literalmente o texto do velho padre Torquato. Foi por isso que, como o escreveu João de Meira, quando o Abade de Tagilde se começou a preocupar com a história local de Guimarães, encontrou-a absolutamente por fazer: a obra do P.e Torquato Peixoto de Azevedo e os dois volumes do P.e António Ferreira Caldas fracos pormenores podiam fornecer para ela. Frutos de uma credulidade extrema, recebendo sem reflexão todas as lendas, ainda as mais fantasiosas, as suas afirmativas não podiam aceitar-se sem um exame minucioso e prévio.

O Abade João Gomes de Oliveira Guimarães enfrenta a necessidade de regressar à matéria-prima primordial da investigação histórica, os documentos, assumindo nas suas pesquisas o papel do investigador escavador paciente e buscador de fontes, tal como foi definido por António Sérgio o trabalho dos eruditos que se encarregam de resgatar a história local da poeira do tempo. Deste trabalho meticuloso e paciente, que o enterrou largo tempo em arquivos e cartórios, a compulsar a mais variada documentação, resultou a construção de uma nova história local de Guimarães, que, muitas vezes, se encaminhou pela pesquisa de temáticas que só décadas mais tarde entrariam no contexto das preocupações dos historiadores (por exemplo, o abastecimento de água ou as epidemias).

A obra publicada pelo Abade de Tagilde é composta, para além de três monografias (Guimarães e Santo António, Guimarães e Santa Maria, de 1904, e Monografia de Tagilde) pelas cerca de 1500 páginas que compõem os artigos que deu à estampa na Revista de Guimarães, ao longo de quase três décadas, na sua maioria integrando a série Apontamentos para a História de Guimarães, abordando as mais variadas temáticas, tais como a Tinturaria Vimaranense, a Alçada de 1828 em Guimarães, os D. Priores da Colegiada, o Convento de Santa Clara, a Vila do Castelo, os Documentos do Mosteiro de Souto, o Abastecimento de Águas Potáveis, o Teatro Vimaranense ou as Epidemias em Guimarães. Projectava escrever uma grande monografia sobre cada uma das freguesias do Concelho de Guimarães, à semelhança daquela que publicou sobre a freguesia de Tagilde. Para tanto, coligiu ao longo de mais de duas décadas um vasto conjunto de documentação referente às origens e à história das freguesias de Guimarães, encadernados em quatro volumes manuscritos que, sob a designação de Apontamentos para a História do Concelho de Guimarães, se encontram actualmente à guarda da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.

Os “Vimaranis Monumenta Historica”

Todavia, o trabalho que foi classificado como a obra capital do Abade de Tagilde, resultou de uma proposta apresentada na Câmara Municipal de Guimarães pelo vice-presidente Antero Campos da Silva, e que seria aprovada em 6 de Abril de 1898, segundo a qual a Câmara deveria mandar publicar todos os seus documentos, incluindo os que existem na Torre do Tombo e das eras mais remotas que se puder obter, formando volumes denominados Anais do Município de Guimarães. A execução deste projecto, que seria custeado pelo erário municipal, foi entregue à Sociedade Martins Sarmento, visto que a sua índole se harmoniza bem com o assunto desta proposta. O Abade de Tagilde tomou-o sobre os seus ombros; meteu mãos à obra, reunindo os documentos que recolheu manuseando os volumes da história pátria, percorrendo, perscrutando e revolvendo arquivos públicos e particulares onde sabia e presumia existirem monumentos, que desde a Idade Média se referiam ao território vimaranense. O objectivo era coligir e publicar todos os documentos históricos que dissessem respeito a Guimarães, desde as origens mais remotas até século XX. Nesta tarefa, esteve envolvido uma década, até que vieram a lume as primeiras páginas impressas dessa obra monumental. No prefácio do primeiro volume dos Vimaranis Monumenta Historica expressou uma vontade: oxalá tenha força e tempo para rematar o encargo, que me foi cometido.

Não teve. A morte prematura levou-o quando contava 58 anos de idade, não lhe permitindo que concluísse o seu trabalho.

João de Meira, amigo do Abade, escreveria num texto em que homenageava a sua memória, publicado no Comércio de Guimarães de 21 de Abril de 1912:
Dois dias antes de morrer ainda ele dizia a um amigo:
- É você quem há-de tomar conta dos Vimaranis.
E esse amigo, se não visse a necessidade de arredar-lhe pensamentos tristes, insinuando-lhe a perspectiva de uma vida ainda longa, ter-lhe-ia dito:
- Não, meu amigo. O primeiro volume verá a luz porque o deixa pronto e não é preciso mais que rever-lhe as provas dos índices. Mas a obra ficará interrompida. O homem que há-de retomar dignamente a tarefa em que a morte o colhe, volto os olhos em roda e não o vejo. E a falta de quem o substitua, meu amigo, é a maior prova do seu valor excepcional.

O amigo era o próprio João de Meira. A morte ceifou-o ainda jovem: sobreviveu menos de um ano e meio após a morte do Abade. Os Vimaranis Monumenta Historica ficavam, definitivamente, sem continuador.

Com o desaparecimento de João Gomes de Oliveira Guimarães, logo seguido por João de Meira, Guimarães via desaparecer uma linhagem de intelectuais proeminentes, que teve como figuras de proa, além deles, homens como Francisco Martins Sarmento e Alberto Sampaio. As principais obras destes homens notáveis, a Sociedade Martins Sarmento e a Revista de Guimarães, iam atravessar por uma profunda e prolongada crise.

Em 1953, aquando das comemorações do centenário do nascimento de João Gomes de Oliveira Guimarães, estava prevista a inauguração, numa praça pública de Guimarães, de um monumento que perpetuasse, no bronze e no granito, a memória do historiador vimaranense. Ficou a promessa.
Até hoje.

 

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