Notas sobre a história da imprensa periódica em Guimarães,
por Alberto Vieira Braga
(in Revista de Guimarães, n.º 50, 1940, pp.31-35)

O P.e Caldas diz-nos que em 1820 implantou Guimarães, dentro dos seus muros, o esplendoroso invento da imprensa, e que são raros os impressos atinentes aos seus primórdios, citando apenas três trabalhos e entre eles figura o semanário O Azemel Vimaranense, publicado dois anos depois (1822). [1]

Até então o jornalismo limitava-se a Lisboa, Porto e Coimbra, de sorte que Guimarães tomou assim o quarto lugar entre as terras que primeiro tiveram jornais.

« Em Lisboa, o primeiro periódico que se vendeu ao preço de 10 réis, e alguns números ainda por menos, a 4, 5, 6 e 8, foi a Gazeta, a primeira que se crê ter existido em Portugal, em Novembro de 1641, embora já antes dela houvesse os chamados papéis volantes, relações ou notícias avulsas, que todavia não apresentavam a periodicidade que caracteriza o jornalismo» [2].

« Antes de 1820, quase não houvera jornalismo no Porto. O Diario Nacional começou a publicar-se em 26 de Agosto de 1820. Antes publicara-se em 1749 o Zodiaco Medico-Portuguez ou Lusitano-Delfico; em 1761, a Gazeta Litteraria do Cónego Francisco Bernardo de Lima. O Diario Universal de Medicina, Cirurgia, Pharmacia, etc., saiu em 1794 a 1796; o Anno Medico em 1792.
Exceptuando, em parte, a excelente Gazeta Litteraria, todos estes periódicas se ocupavam quase exclusivamente de Medicina e de Ciência em geral. Nada ou quase nada diziam do que se passava na cidade, no país ou no mundo. Muito menos se ocupavam de política» [3].

Efectivamente só depois da revolução de 1820 é que por todos os lados do País os jornais principiam a aparecer, mais intensamente, e botados com fervor ao pensamento político, ao credo liberal.
É no correr deste período do liberalismo que nasce o primeiro jornal vimaranense.

Numa correspondência desta cidade para o «Jornal do Comércio» pelo Dr. Avelino da Silva Guimarães, lê-se: «O Azemel, a conjecturar pelos números que tenho presente, vinha recheado de doutrina do séc. XVIII, de epigramas pungentes aos corcundas, e de notícias e incitamentos animadores aos malhados. Uma publicação destas, numa época revolta, precursora dos sequestros, dos processos e da forca, e em que o manejo do cacete era fácil nas ruas tortuosas e então escuras de Guimarães, dá a medida da coragem de todos os que se agremiaram em volta do Azemel. Para amostra reveladora da temeridade destes jornalistas liberais, basta o seguinte: — Aviso aos corcundas — Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho. A trovoada já anda em Braga, e a sua proximidade deve assustar o Militarrão do Tope Vermelho, o Major viajante, as Escrivães que deram a lista dos constitucionais desta vila ao conde de Amarante e ao Carola Alferes do Clube de S. Francisco. Mr. Grilo de Braga já está presa, e Mr. Grilo de Guimarães ainda chichurrubeia. Viva a serenidade Porém até ao lavar dos cestos é vindima» [4].

O periodismo vimaranense, porém, não frutificou, como noutras cidades, durante este período mais aceso de lutas e de teimosas perseguições. Estarreceu e ficou mudo, vingando acentuadamente a febre, de 1856 em diante.

A Tesoura de Guimarães, no seu primeiro número de 2-9-1856, diz-nos que será um periódico político, e que, como tal, mostrará as vantagens do governo monárquico-representativo, e a excelência da CARTA.
Logo adiante, O Vimaranense, de 1859, no seu primeiro número acentua ser um jornal político, que pugnará pela Liberdade.
O que será novidade para muitos, é que em 1886, embora se notasse nesta terra uma certa corrente liberal a nortear muitos espíritos da elite, surgissem com arrogância, no seio pacato do berço da Monarquia, dois jornais retinta e declaradamente republicanos, pioneiros da democracia.

O primeiro, chamado O Futuro, afirma que «lançado ao mundo da publicidade, irá desempenhar na esfera sociológica um papel importantíssima: não menos que o de mostrar ao povo português a necessidade de vigilância em grau eminente, a precisão urgente de nos não deixarmos cegar pelo brilhantismo aristocrata verdadeiramente fascinador, mas não ilusor das inteligências robustas. A democracia é a única salvação do País!».
O outro afinava pela mesma cravelha: «A Epocha entra impávida nas lides jornalísticas; orgulha-se de ser o primeiro campeão da hoste republicana de Guimarães; e firme no seu posto, tenta ajudar a demolição dessa charrua escangalhada a que chamamos Constituição, Não são pueris estas declarações; não visamos a uma posta orçamentológica, nem tampouco a cavaleiras de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Temos por fim o derramamento da luz, a propagação da nova ideia; a confusão dos filisteus do Poder, desses que desprezam as leis da boa sociedade, para se embrenharem no caos onde fervilham. É por isso que comemorando a data mais gloriosa da democracia portuguesa, o 24 de Agosto de 1820, A Epocha aparece hoje à luz da publicidade, prestando preito de homenagem aos valentes daquele tempo.»

Assim falaram, há 54 anos, aqueles embalados profetas da nossa Guimarães.

O Azemel Vimaranense foi, portanto, o primeiro jornal que apareceu nesta terra, em 1822, tendo duração muito pequena, o que é de lamentar, pois que a sua continuação larga, necessariamente viria a fornecer grandes subsídios para a historiografia local, atendendo a que só 34 anos depois voltaram a aparecer jornais nesta terra.
Suprem, embora limitadamente, a falta dos subsídios que os jornais antigos nos poderiam emprestar, os livros de lembranças (manuscritos) do Cónego José Pereira Lopes de Lima, pertença da família Freitas Costa, que desde 1819 a 1835, neles foi apontando tudo o que de mais importante, notório e curioso se passou em Guimarães.

P.e Caldas somente nos dá a resenha de dezassete periódicas, caindo por vezes em erros de informação quanto às datas da publicação de alguns deles.
Nesta espécie de erros, mais ainda tropeça O Jornalismo Português, de A. X. da Silva Pereira, edição de 1895, trabalho algo valioso e cheio de subsídios para o estudo do jornalismo de qualquer terra do País. Este autor, quando se refere aos jornais antigos de Guimarães, informa em erro, pelo P.e Caldas, e quando cita os demais, peca pelas informações pouco seguras. Ainda assim este volume enumera trinta e cinco gazetas publicadas em Guimarães.

  1. Guimarães, vol. I, pelo P.e Ferreira Caldas, capítulo Imprensa.
  2. Olisipo, berço do periodismo Português, Lisboa, 1939, por Alfredo da Cunha. Ver também, sobre este assunto, o tomo II do «Panorama» (Janeiro de 1838), pág. 101, artigo atribuído por Inocêncio a Herculano.
  3. «Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto», vol. II, fasc. III, conferência de A. de Magalhães Basto, pág. 295.
  4. O Labor da Grei, pág. 143.

Na Revista de Guimarães:


O Azemel Vimaranense. - 32 (4) Out.-Dez. 1922, p. 409-414.
VASCONCELOS, A. Tibúrcio de

Ciclo de conferências públicas na Sociedade Martins Sarmento. Jornalismo vimaranense. Lição vibrante de amor à terra. - 63(3-4) Jul.-Dez. 1953, p. 477-609.
ALMEIDA, Hugo de

 

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