Solar da Ponte na década
de 30

 

 

Uma casa com história

Em S. Salvador de Briteiros, no concelho de Guimarães, encontra-se um dos edifícios-referência mais importantes de toda a região.

Residência da Família de Francisco Martins Sarmento, é uma construção complexa do princípio do século XIX e está estrategicamente bem localizada entre dois importantes sítios arqueológicos: a Citânia de Briteiros e o Castro de Sabroso e muito próxima de ambos.

De arquitectura senhorial, sofreria mais tarde algumas alterações e acrescentos que lhe deram a forma actual. Dos seus anexos, além da eira, do alpendre e da moradia do caseiro, etc., fazia parte um moinho e uma rede de canais que lhe conduzia a água a partir de um açude.

A localização do Solar propiciou a Sarmento uma atracção irresistível pelo imaginário guardado pelo povo a propósito da Citânia. Desde muito jovem que as “mouras encantadas” deviam povoar os seus sonhos através das lendas e contos veiculadas pelos sábios contadores de histórias da sua aldeia e, mais tarde, pelo jovem e incansável caminheiro que, disfarçado de caçador, sonhava sobre as ruínas castrejas um mundo ignorado. Os tesouros avaros guardados pelas velhas pedras devem ter constituído desde sempre um desafio mudo à curiosidade do Sábio e pesado na orientação dos trabalhos de investigação de Sarmento.

Mas o velho Solar não serviu apenas como base de exploração arqueológica.

Foi refúgio de Camilo Castelo Branco em período difícil em que o escritor se viu perseguido e escasseavam os abrigos seguros. Da sua permanência no Solar deixou registo:

“A meia légua das Taipas, tem Francisco Martins uma quinta, chamada de Briteiros. Na casa magnífica da Quinta vivia um par de cônjuges decrépitos, antiquíssimos criados de pais e avós do meu amigo. A extensão das salas, câmaras, corredores em longitude e forma conventual, de tudo me senhoreei. Escolhi o quarto, cujas janelas faceavam com um recortado horizonte de arvoredos, e a cumeeira chã dum serro onde se divisam as relíquias de antiga povoação, que lá dizem ter sido Citânia, cidade de fundação romana.

Algumas horas ali passou comigo Francisco Martins; mas o máximo dos dias e as noites vivi diante de mim próprio, na soledade daquele quarto, ou em perigosas excursões à serra sobre um cavalo, que parecia vezado a passear sobre alcatifas.

Amanheci um dia entre as ruínas da presumida Citânia. Vi algumas pedras derruídas em cômoros, as quais denunciavam ausência de toda a arte, para de pronto desvanecer conjecturas de edificação regular. Existiam vestígios de cisterna, e descalçadas lajens dum caminho de pé-posto, que sem dúvida tinha sido estrada.”

Dessa época ficou, até ao fim da década de 60 do século que agora termina, alguma memória como a que se registou em 1967. Trata-se de um dos dois altares então existentes no Solar, imagem rara de uma casa que entrou em lenta e inexorável agonia até há pouco menos de três anos, quando se decidiu, numa primeira fase, restaurar todo o exterior do edifício (telhados, paredes, portas e janelas) e colocar uma placa no 1º piso. Urgia que tal se fizesse, também em atenção à passagem do primeiro centenário da morte de Martins Sarmento.

Pese embora a nossa região ter sido pátria de um assinalável conjunto de figuras notáveis, a verdade é que, para além da obra que nos legaram, nunca ninguém com responsabilidades públicas manifestou qualquer preocupação de consagrar a sua memória através das casas onde nasceram, viveram ou morreram. A quase totalidade destes espaços desapareceu, está em ruínas ou perdeu a sua identidade. Resta-nos, ao menos, aqui a dois passos, os esforços de recuperação e manutenção e valorização da casa e do legado de Camilo. Infelizmente, não serve de exemplo a ninguém.

Em Guimarães, se não fosse a existência da Sociedade que guarda a memória viva de Martins Sarmento, aconteceria à casa patronímica de Briteiros e aqueloutra, da cidade, onde ele viveu e morreu, o mesmo destino da que o viu nascer. Na alternativa, seriam hoje ruínas a assinalar o esquecimento da sua terra em relação a quem tanto a amou.

O que aconteceu com o Solar da Ponte é paradigmático. E (quase) toda a gente sabia o que ele representa(va) para o imaginário popular e como ex-libris cultural vimaranense. Não, não foi apenas o refúgio de Camilo e a base da explorações arqueológicas de Sarmento. Ali se dessedentaram os conferencistas que, em 1877, se reuniram em Guimarães no que foi o primeiro congresso arqueológico nacional; e, três anos depois, são os congressistas que ali se acolhem antes da sua histórica visita à Citânia. Um século depois do nascimento do Sábio, é no Solar da Ponte que um conjunto notável de admiradores e estudiosos resolve colocar uma lápide assinalando tão importante evento.

Ao entrar no século XXI, o esforço da Sociedade Martins Sarmento concentrou-se em transformar o velho Solar no Museu da Cultura Castreja.

Cento e trinta anos depois do tempo em que Sarmento chamou a atenção para a jóia das citânias portuguesas - a Citânia de Briteiros - e se dedicou ao estudo das nossas raízes, que se embebem profundamente na cultura castreja, a instalação do Museu em Briteiros marca o regresso dos achados arqueológicos de Sarmento à casa que primeiro os albergou.

  topovoltar