Solar da Ponte em ruínas

 

 

 


O Solar da Ponte encontra-se no vale de Briteiros onde corre mansamente o Ave. Situa-se no lugar da Ponte, em S. Salvador de Briteiros, a NNE das Caldas das Taipas, no sopé do Monte de S. Romão, sensivelmente entre esta elevação que é coroada pela Citânia de Briteiros e o monte de Sabroso que ostenta o castro do mesmo nome.

O acesso a S. Salvador de Briteiros é feito pelas E.N. 309 e E.M. 586, ambas saindo da estrada nacional que liga Caldas das Taipas à Póvoa de Lanhoso. O acesso ao Sabroso faz-se pela E.N. que liga Caldas das Taipas à Falperra ou através de um pequeno troço de estrada que o liga directamente a S. Salvador de Briteiros.

O Solar da Ponte e os seus terrenos de logradouro são envolvidos a nascente e sul por um ribeiro denominado Rio Febras, afluente do Ave.

O conjunto edificado formava um L, envolvendo no seu interior um terreiro, centro da actividade agrícola a que originariamente era destinado. Era composto por seis edifícios, quase todos ligados entre si: jardim [a recriar] (1), Solar da Ponte [recuperado exteriormente] (2), a casa do caseiro [em ruínas] (3), o alpendre [em ruínas] (4), o curral [em ruínas] (5), o sequeiro [em ruínas] (6) e o espigueiro [no projecto para recuperar] com eira (7) e, ainda, um moinho de grão [recuperado] (8), com seu açude [recuperado] (9), no Febras, de que há mais de meio século só existia o afloramento dos alicerces. Todo o conjunto edificado entrou em ruína acelerada a partir da década de 80.

Em frente da fachada principal teria existido um característico jardim da época (de que não ficou qualquer vestígio), com fontanário/tanque, encerrado por muros de vedação dos quais se destaca o principal com a célebre entrada barroca, bem na direcção do eixo da fachada da casa.

O Solar da Ponte é uma casa despretensiosa de província, casa simples que, no seu carácter rude revela as possibilidades e limitações dos nossos construtores e define um estilo de vida rural português. De planta rectangular, desenvolve-se em comprimento, tem beiral saliente, frontão ondulante e a composição dos alçados caracteriza-se pela extrema simplicidade.

A casa atravessou gerações subsistindo pelos séculos fora e sofreu obras, ampliações e transformações, mais no interior do que no exterior. Adaptaram-se salas, acrescentou-se uma ala inteira (século XIX), talvez onde antes fora a tradicional varanda alpendrada. Demoliu-se a imponente chaminé característica da construção rural do século XVIII (felizmente registada em raros documentos fotográficos de 1930). Isto em épocas sucessivas, segundo o gosto, as necessidades e as possibilidades económicas dos proprietários. Mas as características globais da época da edificação mantiveram-se, conseguindo, o edifício e o conjunto a que pertence, manter o carácter e a presença original, estando ainda patentes os princípios orientadores da arquitectura barroca, como os da preferência pelas formas maciças, do gosto pela monumentalidade, da preocupação com efeitos dramáticos e teatrais e da exploração da profundidade.

Nesta casa nobre setecentista todo o esforço arquitectónico foi concentrado na fachada, verificando-se grande disparidade entre esta e o interior. Este último, de grande simplicidade, revela um estilo de vida que se caracteriza pela sobriedade.

Como casa solarenga do século XVIII, desenvolve-se horizontalmente, procurando a estabilidade e possui os dois pisos característicos. O segundo piso é nitidamente dominante – o célebre “andar nobre” – e da sua importância se pode avaliar pela concepção das aberturas que neste nível se mostram mais ricas do que no piso térreo. Este último, os “baixos”, era aproveitado para arrecadações, adegas, celeiros e eventualmente currais.

As fachadas são articuladas com pilastras lisas e pouco salientes. Este verticalismo, porém, é contrariado pelo emprego de faixas horizontais que cortam as fachadas. Nota-se a tendência para acentuar a linha superior do edifício pelo beiral saliente apoiado em cornija proeminente.

O elemento mais em evidência é a entrada nobre, rematada inferiormente por grande escadaria semicircular e superiormente, rompendo a linha dos telhados, por um frontão em arco.

É curioso observar o choque da escadaria com a casa – esta definida pelo plano da fachada, estática e presa à terra, aquela desenvolvendo-se em profundidade e caracterizada pela impressão de movimento.

O interior, sendo muito simples, apresentava, antes de ter atingido o estado de completa ruína, nalguns pontos, uma decoração com algum interesse, nomeadamente nos tectos e nas portas.

Apesar da altura daqueles não ser considerável, eles eram os conhecidos tectos em “masseira”, sendo de realçar o tecto do compartimento contíguo ao da entrada, que era octogonal com ornatos. Na fase de recuperação actual, por falta de desenhos e dos seus elevados custos, projecta-se a colocação de tectos falsos. Situa-se também no “andar nobre” a cozinha tradicional com forno, a lareira e que tinha os armários embutidos nas paredes. Também no andar e perto da cozinha se situavam as instalações sanitárias, obviamente muito deficientes, apenas dotadas de estrado sobreelevado com buraco. Os dejectos era recolhidos, por acção da gravidade em compartimento próprio do rés-do-chão, para aproveitamento como estrume.

Na casa, escadaria, jardim (a projectar), tanque, muros de vedação e portão exterior (que as actuais obras de restauro procuram salvaguardar) vai manter-se a evidente tentativa de relacionar todos estes componentes. Isto tendo em conta que se, apesar de tudo, não atingem a expressão monumental e requintada do usual no século de setecentos, tornar-se-á possível verificar as concepções e tendências da época, com as quais se procurava subordinar a natureza a um plano de conjunto a partir da casa. De facto o tratamento de todos os elementos referidos obedeceram a um plano em que tudo se integra perfeitamente, submetendo-se o conjunto a regras arquitectónicas que permitem explorar certos efeitos. Nesta solução, as vistas são parte integrante da composição, satisfazendo a tendência da arte barroca de prolongar os espaços até ao infinito. Favorecendo o prolongamento do eixo da casa por avenida ladeada por (eventual) jardim, até ao portão principal, poder-se-á encontrar uma íntima relacionação da casa com a organização do espaço exterior, que surgirá assim quando nos aproximarmos do conjunto, valendo, então, sobretudo, pela sua função decorativa e fundamentalmente pela intenção de dar acesso condigno à propriedade

Na primeira fase de recuperação e restauro do Solar da Ponte a Sociedade Martins Sarmento procurou, em primeiríssimo lugar, salvar o que restava da estrutura da casa, colocando-lhe telhado novo e novas portas e janelas, e proceder, ainda, à construção da placa em betão armado do piso do 1º andar.

Ao mesmo tempo, e atendendo ao peso que a arqueologia industrial molinológica tem na região, e também no sentido de valorização daquele espaço, a Sociedade Martins Sarmento apresentou candidaturas ao Programa Leader II, que já viu aprovadas, e que permitiu restaurar o moinho de grão que existia no Rio Febras, próximo do Solar, e também a edição de um desdobrável sobre Briteiros e o seu envolvimento.

Os projectos da Sociedade Martins Sarmento para aproveitamento do Solar da ponte, dos agora edifícios anexos e dos terrenos da quinta, são os seguintes.

Primeira fase (concluída):

Edifício principal (Solar da Ponte)

  • Museu da Cultura Castreja
  • Acessos
  • Estacionamento

Segunda fase (curto prazo):

Eira e Alpendre

  • Futuro Museu dos Moinhos

Zona agrícola envolvente do Solar

  • Tratamento paisagístico e aproveitamento reprodutivo dos terrenos da quinta (cerca de 6 hectares)

Terceira fase (médio prazo):

Outros edifícios anexos

  • Zona de alojamento afecto ao turismo cultural
  • Área social
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