Aspectos do Solar da Ponte recuperado

A Sociedade Martins Sarmento tem vindo, desde a sua fundação (1881), a chamar a atenção, com maior ou menor insistência e com maior ou menor clareza, para o castrejo, cuja cultura foi a matriz dos povos do noroeste peninsular.

Nas investigações sarmentinas ela assumia uma feição emblemática que fez concitar em Briteiros a atenção da Europa.

Mário Cardozo, entre os anos 30 e 70, por sua vez um dos maiores divulgadores da cultura dos Castros enquanto desenvolveu a sua principal actividade de arqueólogo.

Nas últimas décadas, com progresso generalizado da Arqueologia, foi-se “tornando possível conhecer suficientemente diversos aspectos fundamentais da habitat castrejo nas suas várias dimensões, designadamente no Noroeste português, área que, com alguns prolongamentos na parte meridional galega, aparenta com certa nitidez reconhecidos contornos de uma subunidade cultural”[1].

Não se entende muito bem como é que se atinge o ano 2000, e se entra num novo século, numa situação perfeitamente análoga aquela por que passaram os vimaranenses cem anos antes.

Com precioso capital que os anos têm vindo a valorizar sem quaisquer mais valias para ninguém, é tempo de chamar a atenção para a riqueza que, por ignorância, ou displicência, tem vindo a ser desprezada.

Quando se refere a ignorância que pesa sobra a rica herança patrimonial da “civilização de pedra”[2] ela tem a ver com a generalidade dos noroestinos que não com os cientistas e devotos que a têm acarinhado e promovido. E, entre os devotos, é justo realçar a SMS, em si, e o conjunto de cientistas nacionais e estrangeiros chamados a estudar a proto-história europeia para melhor compreender o castrejo do noroeste peninsular.

“Passando, com efeito, das abordagens mais genéricas, de base predominante geográfica, seguindo a linha das informações herdadas dos autores antigos, com especial relevo nas referências estrabonianas, que apontam, em regra, para uma uniformidade cultural na Proto-história do Noroeste peninsular, para análises mais intensivas e de grande amplitude dos seus diversos elementos aos mais diversos níveis, torna-se manifesta uma composição em subunidades de marcante individualidade, devendo ser retomados os problemas relativos à territorialidade da cultura castreja tendo em conveniente consideração o volume de dados mais recentemente conseguidos em provas de campo e com novos argumentos de ordem cronológica, étnica e cultural”[3].

Quando se refere o noroeste peninsular como a área de incidência da cultura castreja é possível ser-se mais preciso referindo que no seu espaço “foi já estabelecido com relativa nitidez com o âmbito mais alargado da sua área”[4] definido pelos rios Navia e Esla, a Oriente[5] pelo rio Vouga, a Sul[6], e com limites naturais, a Norte e Oeste, pelo Oceano Atlântico, cobrindo o Norte de Portugal, pela totalidade do território galego, a zona ocidental das Astúrias, e as regiões imediatas, a que parece corresponder, genericamente, uma província geográfica com características bem definidas por uma posição atlântica, vincados sistemas orográficos, uma densa rede hidrográfica e uma importante riqueza de recursos naturais[7].

[1] O Habitat Castrejo: Evolução e Cronologias, in A Cultura Castreja no Noroeste de Portugal. A. C. Ferreira da Silva.
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] López Cuevillas 1933 e 1954, p. 14-16.
[5] Especificadamente, sobre os limites orientais, cfr., vg., Esparza 1983b, p. 83-84.
[6] Idem, sobre os limites meridionais: Souto 1942, Almeida 1974a, p. 173.
[7] Almeida 1983 a, p. 70.

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