Gil Vicente, poeta e dramaturgo português, terá nascido em Guimarães por volta de 1465 e falecido em Lisboa, provavelmente em 1536.
Sobre a sua vida e actividade pouco se sabe de seguro: é incerto o local onde nasceu, as datas de nascimento e de óbito que lhe são atribuídas são conjecturais, não é pacífica a sua identificação com um renomado ourives do reino, nem com um mestre da balança na Casa da Moeda que tinha o mesmo nome.
Quanto ao nascimento, com base num manuscrito genealógico quinhentista (Linhagens dos Fidalgos de Portugal, de D. António de Lima Pereira), tem-lhe sido atribuída a naturalidade de Guimarães, embora haja quem defenda que se trata de Guimarães de Tavares, no concelho beirão de Mangualde.
Quanto ao ofício, sabe-se que existiu um ourives também chamado Gil Vicente, que lavrou a notável custódia de Belém e que realizou trabalhos de monta para a Corte portuguesa no início do século XVI, mas é provável que se tratasse de uma outra pessoa, uma vez que se presume difícil de conciliar a riqueza inerente à condição de ourives bem sucedido com a modéstia da vida que o poeta deixa transparecer dos seus escritos.
Há uma outra tradição, mais plausível que identifica Gil Vicente como mestre de retórica do rei D. Manuel. Da mesma época conhece-se também em Lisboa um Gil Vicente alfaiate que foi procurador dos mesteres na Câmara de Lisboa.
Muito provavelmente seriam pessoas diferentes, com o mesmo nome, que naquela época em Lisboa seria relativamente comum (Gil era vulgar, Vicente era o nome do padroeiro da cidade).
Da vida de Gil Vicente é certo que esteve ao serviço da Corte desde 1502, organizando os festejos palacianos por ocasião dos nascimentos, casamentos, recepções e festas cristãs. Naquele ano, representou a sua primeira peça, ao declamar o Monólogo do Vaqueiro, por ocasião do nascimento de D. João, filho de D. Manuel e de D. Maria. Foi protegido por D. João III, de quem recebeu tenças e outros prémios. Colaborou na obra O Cancioneiro Geral, de Garcia Resende. Entre 1502 e 1536 desenvolveu uma notável actividade teatral, tendo escrito mais de quatro dezenas de peças em português e em castelhano. Em 1531, num discurso perante os frades de Santarém, quando Portugal acabava de ser abalado por um terramoto, atacou as prédicas dos clérigos que aterrorizavam os fiéis anunciando-lhes que os cataclismos eram resultado da ira divina contra os pecados dos homens. No mesmo sentido escreveu uma carta a D. João III contra a perseguição aos judeus.

Casou por duas vezes, a primeira com Branca Bezerra, de quem teve Gaspar de Belchior, e a segunda com Belícia Rodrigues, mãe dos seus filhos Paula, Luís (responsável pela edição da compilação das suas obras em 1562) e Valéria. A última notícia de Gil Vicente coincide com a sua última obra, Floresta de Enganos, de 1536.

Na sua obra, Gil Vicente dedica-se à crítica social, criando uma galeria de tipos que permitem retratar a sociedade portuguesa do seu tempo, ilustrando os seus vícios e os seus dramas.
Na maior parte das vezes, os tipos vicentinos assumem carácter simbólico, não sendo identificados por nomes, mas pela actividade que exercem ou por qualquer outro traço social distintivo: parvo, sapateiro, onzeneiro, ama, juiz, clérigo, frade, bispo, alcoviteira.

Utilizando o teatro como fonte de moralidade, Gil Vicente retratou nas suas obras a degradação dos costumes, a alcoviteirice, a infidelidade conjugal, a feitiçaria, a superstição, a usura, a imoralidade dos religiosos, a incompetência dos médicos.

Um dos traços mais originais da obra vicentina, que se socorre de uma estrutura cénica com enredos muito simples, situa-se ao nível a linguagem que emprega, reproduzindo os diferentes registos dos falares dos diferentes extractos sociais seu tempo: nobres, juízes, médicos, lavradores, nobres, artesãos, pobres, parvos, crianças, africanos.
Aliás, o uso da linguagem é, em Gil Vicente, o principal elemento de produção de efeitos cómicos, ao incorporar trocadilhos, ditos populares e expressões características de cada classe social.

A obra-prima de Gil Vicente é formada pela trilogia das Barcas: o Auto da Barca do Inferno (1516), o auto da Barca do Purgatório (1518) e o Auto da Barca da Glória (1519), que se debruçam sobre a temática do julgamento das almas após a morte, com a representação alegórica a representação alegórica de duas barcas que conduzem os mortos ao Paraíso ou ao Inferno, segundo os seus comportamentos em vida.

A obra de Gil Vicente marca o início do teatro literário em Portugal.

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