ACTA DA INSTALAÇÃO

Aos vinte dias do mês de Novembro de mil oitocentos e oitenta e um, pelas onze horas da manhã, a convite dos Senhores Avelino Germano da Costa Freitas, Avelino da Silva Guimarães, José da Cunha Sampaio, Domingos Leite de Castro e de Domingos José Ferreira Júnior reuniram-se em uma das salas da Assembleia Vimaranense os cavalheiros abaixo assinados.

Usando da palavra o Senhor Doutor José da Cunha Sampaio, primeiro testemunhou à assembleia o seu agradecimento e dos indivíduos acima referidos pela obsequiosa deferência que lhes dispensaram, acolhendo com agrado os convites que lhe dirigiram e comparecendo àquela reunião. Em seguida expôs em termos gerais, o plano da projectada associação, indicando dirigir-se ela, por um lado, a prestar homenagem ao nosso ilustre conterrâneo o Excelentíssimo Senhor Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento e por outro prestar utilidade a esta terra, promovendo o desenvolvimento da instrução primária, secundária ou profissional.

Fez notar as dificuldades que a comissão teve em vencer a característica modéstia do Excelentíssimo Senhor Sarmento para obter dele a necessária autorização, a fim de que a sociedade pudesse usar, como melhor título de nobreza, do seu nome respeitado e ilustre. Observou ainda, que o pensamento da comissão tinha achado eco no ânimo de todas as pessoas a quem fora comunicado e que por isso ela se afoitara a promover a presente reunião. Disse mais que, para tornar efectivo o pensamento da comissão se organizou um projecto de estatutos o qual vinha acompanhado de um desenvolvido relatório, que explicava cabalmente os intuitos da comissão e que tanto aquele como este ia submeter à patriótica e inteligente apreciação da assembleia. Pediu, pois, permissão para proceder à leitura dos documentos aludidos, os quais aqui transcrevo:

RELATÓRIO
Senhores:

Não há uma só pessoa ilustrada desta terra que desconheça o alto merecimento literário e científico do seu conterrâneo o Excelentíssimo Senhor Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento, não há quem ignore que Sua Excelência sendo um dos espíritos mais cultos do Minho, na frase do nosso eminente romancista Camilo Castelo Branco, conquistou um lugar de honra entre os mais sabedores do seu país. Não há também nesta cidade quem o não respeite, quem lhe não preste o tributo da sua consideração e simpatia, como cavalheiro de exemplar pundonor, como homem de letras do mais subido quilate.

É certo porém que até hoje ninguém tomou a iniciativa de promover que esse sentimento geral, acidentalmente revelado em manifestações individuais, viesse à luz pública por uma forma mais distinta e colectiva.

Quando, ano passado, o nosso ilustre patrício foi condecorado pelo Governo da República Francesa em testemunho de elevado apreço do seu renome como arqueólogo distintíssimo, os abaixo assinados entenderam que se podia ter sido até então motivo de estranheza o silêncio desta terra, seria causa de justificada censura que esse silêncio se prolongasse depois que o governo de um país como a França, depois que o nosso Governo, a nossa Academia, e os centros científicos da Europa vieram também publicar laureando-o, que nesta terra vivia um homem que criara um nome respeitadíssimo, e assim avivara as memórias gloriosas da sua pátria.

Desde então tornou-se impreterível afirmar mais uma vez com o nosso épico – Que um nome ilustre a um certo amor abriga; manifestar que os vimaranenses não podem conter por mais tempo o respeito pela modéstia do seu patrício, e prestar por um modo condigno e público a homenagem do respeito, a expansão da gratidão a quem, por seu indefesso trabalho, alta inteligência, e apurada crítica consegue, ainda no vigor da vida, para si o renome imperecível, para o nome da sua terra a atenção do mundo dos sábios.

Para este fim patriótico nos congregamos, estudando os meios de o levar a efeito.

Pensamos que uma festa ruidosa – expressão do entusiasmo súbito, em que largamente a alma se expande, mas que não deixa da intensidade dos sentimentos senão um fulgor que pouco a pouco se esvaece, não era o que mais convinha como manifestação colectiva e pública de uma cidade.

Por isso nos lembramos da criação de uma instituição, que possa viver sem limitações de tempo, que seja como que um monumento recordativo dos altos dotes intelectuais de um homem respeitável, e que aufira elementos de duração indeterminada pelos benefícios sociais que há-de prestar sob o influxo do nome do nosso ilustre patrício: para este duplo fim nenhuma outra nos pareceu mais ajustada que uma associação de instrução, cuja necessidade de há muito sentíamos, criada em condições modestas para que a tentativa não intimide por ostentosa, mas contendo os germens do mais largo e proveitoso desenvolvimento.
Dar à associação, por melhor título de nobreza, o nome do nosso patrício, com prévia autorização que podemos conseguir, inaugurá-la no dia Nove de Março, seu aniversário natalício, e fixar para este dia os actos mais solenes em homenagem perpétua; estabelecer como um dos fins principais o desenvolvimento da instrução deste concelho, em que tanto se sente a falta de institutos de instrução secundária; acudir à nossa indústria com escola ou escolas profissionais, que inoculem no espírito dos nossos industriais, naturalmente aptos, as indispensáveis noções dos novos progressos da arte, para deste modo se levantar a indústria de Guimarães às condições de sustentar concorrências estranhas: tais são os fins indicados, mais ou menos explicitamente, no projecto de estatutos que temos a honra de oferecer à vossa patriótica e inteligente apreciação.

Pensamos que é esta a manifestação mais condigna. Poderia erigir-se um monumento em granito ou mármore, abrindo-lhe na base inscrições comemorativas; mas não será um anacronismo que neste século de actividade intelectual prefiramos a inscrição à associação, o mármore a um pensamento em actividade constante, a inércia de uma coluna ao vivido movimento de uma instituição, que deve prosperar se nunca lhe falecer a vossa protecção e a dos nossos conterrâneos?

O monumento pode esboroar-se e desaparecer no fragor das tempestades, ou no vandalismo das guerras: a instituição, se cria raízes, se preenche uma necessidade real, se representa um progresso na educação social, vive além das convulsões, adquire condições de perpetuidade, permanece enquanto não está satisfeito o seu fim, enquanto se não torna inútil por novos progressos, vivendo ainda assim na memória dos que lerem as páginas da sua história.

Que este pensamento mereça a vossa aprovação que a associação atinja o maior auge de florescência, e desdobre a sua prosperidade em instituições de incontrastável benemerência social, é esse o mais ardente voto da comissão iniciadora.

Guimarães, 20 de Novembro de 1881.

Domingos José da Silva Júnior
Domingos Leite de Castro
Avelino Germano da Costa Freitas
José da Cunha Sampaio
Avelino da Silva Guimarães – Relator.

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