Tendo nascido em Guimarães, no seio de uma família abastada, a Francisco Martins Sarmento parecia estar traçado o futuro despreocupado de um homem rico. Todavia, contrariando o seu destino, viria a tornar-se uma personagem singular no contexto cultural português da segunda metade do século XIX.

Iniciou a aprendizagem das primeiras letras aos oito anos, fez o liceu num colégio do Porto e, em 1848, com quinze anos, foi para Coimbra onde estudou Direito. Aí se envolveu na roda-viva da boémia estudantil coimbrã, sendo famoso o seu pouco interesse pelo conteúdo dos livros de leis. Apesar de tudo, aos 20 anos era bacharel. Jamais faria uso do seu curso.

Por meados do século XIX, os jovens pareciam atingidos por uma mania singular: tornavam-se poetas. Sarmento não escapou a esta regra. Os primeiros textos que publicou trazem a marca característica da sua geração. São poemas traçados segundo a moda e o gosto do ultra-romantismo, embora caracterizados pela fraca consistência formal, mas profundamente reveladores do estado de espírito do jovem Sarmento. São versos tristes e desiludidos de alguém que deixa transparecer uma profunda angústia e um grande desencanto perante as armadilhas da vida. Desilusões amorosas, dirá quem o leu.

O escritor Camilo Castelo Branco, que se ligará a Sarmento por laços de uma amizade profunda e solidária, escreve num texto a propósito de Poesias, livro de Sarmento publicado em 1855, que lhe perguntou se tudo aquilo era verdade. Do que o amigo lhe respondeu, o romancista nada nos informa. Mas diz-se convencido pelo que escutou em resposta, apesar de Sarmento não lhe ter aberto a vala onde caíram amortalhadas as suas afeições, tão cedo.
Não seria como poeta que Sarmento atingiria a notoriedade, terminando com aquela publicação os seus devaneios líricos.

Decorrido algum tempo, e depois de ter recebido críticas impiedosas em relação ao mérito dos seus versos, acabaria por retirar de circulação o livro (a que chamaria mais tarde de poesias abomináveis), desde então uma raridade bibliográfica.

Por essa altura, recolheu-se Francisco Martins Sarmento na sua cidade natal, dividindo o tempo entre Guimarães e Briteiros. Passava os dias entre os livros da sua monumental biblioteca, lendo de tudo, como ele próprio dizia. Aí se começava a afirmar como homem de sólida cultura: lia muito, dominava diversas línguas, de vez em quando vinha a público envolver-se em polémicas que ficariam célebres, mas tardaria em encontrar um objecto de interesse em que envolvesse o seu espírito inquieto.

Fronteiro à casa da Ponte, o solar paterno de Briteiros onde Sarmento passava parte do seu tempo de estudos, erguia-se o monte de S. Romão, carregado de lendas e de segredos, onde o povo ia levar o Santo em procissão, sempre que lhe faltava a chuva, Era um monte povoado de histórias de mouros, que teriam construído naquele lugar uma cidade, chamada de Citânia, de que se podiam ver as ruínas que afloravam a terra. Daí tinha sido trazida uma pedra que, pela sua rica decoração, recebeu do povo o nome de Pedra Formosa.

Da curiosidade com que desde criança percorria aqueles destroços de uma povoação cujas origens se perdiam no tempo, aliada ao seu interesse pela História, viria a desenvolver-se a inclinação de Sarmento por desvendar os mistérios do passado. No seu estudo, iniciado quando já contava mais de quarenta anos de idade, investiria a sua cultura e a sua fortuna, tornando-se no primeiro grande arqueólogo português e adquirindo um renome científico que atravessou fronteiras e teve reconhecimento internacional.
E é ainda o seu amigo Camilo que nos retrata a razão do interesse de Sarmento pela arqueologia quando afirma que desde que o amor das cristãs lhe desmiolou a cavidade craniana, anda em cata de mouras encantadas, no ímpio propósito de mourizar-se, se alguma o envolver nas madeixas negras, destrançadas com pente de ouro.

Em Guimarães era conhecida aquela figura notável, alta e magra, de barbas e cabelos negros, com o rosto atravessado por profundas rugas e pele bronzeada pelo sol de intermináveis caminhadas. Caçador de perdizes, com pouco sucesso por notória falta de pontaria, dessa actividade ficou-lhe hábito de peregrinar por montes e vales, sendo capaz de jornadas solitárias que o levavam a percorrer quilómetros e quilómetros em busca de vestígios de antigas civilizações.

Denotando grande capacidade de trabalho, de que fará alarde até aos últimos dias da sua vida, e municiado de grande cultura, em breve a sua actividade começa a atingir resultados palpáveis. As notícias dos seus empreendimentos de escavação arqueológica em Briteiros espalhavam-se. De toda a parte chegavam cientistas interessados em conhecer de perto os frutos das pesquisas do sábio vimaranense. Ao mesmo tempo, o seu espírito incansável ia lançando meticulosamente nos seus cadernos os passos das suas investigações. E os seus livros, tão ricos de erudição que poucos os entendiam, recebiam o aplauso dos críticos mais exigentes.

Alimentava Sarmento o projecto de uma obra grandiosa: a descrição da arqueologia de Entre Douro e Minho. Projecto nunca concretizado, mas de que deixou milhares de páginas de notas manuscritas onde expõe os materiais recolhidos nas suas inúmeras expedições e as informações que recebia de todo o lado. Em grande parte ainda inéditos, estes apontamentos constituem um imenso manancial de informações arqueológicas. Com a sua publicação sistemática, serão trazidos a público instrumentos fundamentais para a investigação dos vestígios mais remotos da ocupação humana do Norte de Portugal.

Mas não era a arqueologia o único ponto de interesse de Sarmento. Convencido de que muitas das tradições que então faziam parte dos usos e das crenças do povo eram resultado da herança dos mesmos homens que ergueram as citânias e os castros que ia identificando um pouco por todo o lado, preocupa-se em recolhê-las e registá-las com notável rigor, legando-nos um importante reportório de tradições populares.

Foi igualmente importante a sua actividade como fotógrafo, iniciada em 1868. Revela-se então como pioneiro da fotografia de carácter científico, tendo-nos deixado centenas de negativos em vidro, na sua maior parte de temática arqueológica, que têm permanecido esquecidos.

A Guimarães dos finais de oitocentos olhava com orgulho a figura do seu cidadão mais notável. Foi assim que, ao contrário do que é comum entre nós, a importância da obra de Francisco Martins Sarmento foi reconhecida ainda em vida pelos seus conterrâneos. Em 1882, um grupo de vimaranenses ilustres, em homenagem ao sábio arqueólogo, criou a Sociedade Martins Sarmento, que erigiria como seu principal propósito o fomento da instrução popular, desenvolvendo desde logo uma importante acção de dinamização cultural. Sarmento viria a legar a esta instituição os seus bens, nomeadamente os milhares de livros da sua biblioteca e o seu espólio científico, constituído em grande parte por peças arqueológicas que tinha adquirido com a sua fortuna pessoal.
Morreu Francisco Martins Sarmento em 9 de Agosto de 1899, deixando grande parte da sua obra inacabada e inédita. E, como conta quem o acompanhou nos seus últimos momentos, até na hora da morte se revelou o seu carácter de trabalhador incansável: parecia agarrar-se à vida, com a mão a mover-se no ar, esboçando os movimentos de quem folheava um caderno imaginário e lançava no papel as últimas notas de uma obra imensa que não morria com ele.

Biografia de Francisco Martins Sarmento por Mário Cardozo

Na Revista de Guimarães
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