Museu da Cultura Castreja

Museu da Cultura Castreja | Solar da Ponte

Rua do Solar 4805-448 Briteiros S. Salvador, Guimarães

Todos os dias | Verão 9h30m-12h30m/14h-18h, Inverno 9h30m-12h30m/14h-17h

Encerra no dia 1 Janeiro, Domingo de Páscoa e 25 de Dezembro.

Visitas guiadas e informações: + 351 253 478 952 | citania@msarmento.org

 

O Solar da Ponte é uma antiga casa agrícola, construída nos finais do século XVIII, que pertencia à família de Francisco Martins Sarmento (1833-1899). Integrava uma vasta propriedade que incluía terras de cultivo, eira, espigueiro, moinho, estábulos e habitações dos caseiros da quinta. O solar teve importantes reformas no início do século XIX, promovidas pelos pais de Sarmento, Joaquim de Gouveia Morais Sarmento e Joaquina Cândida de Araújo Martins, nomeadamente o frontão e a escadaria da fachada principal, o portão do terreiro e o chafariz.

Martins Sarmento, que residia habitualmente em Guimarães, utilizou este espaço como casa de campo e aqui ficava alojado durante os trabalhos arqueológicos que efetuou na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso, ambos localizados nas redondezas. Sarmento recebeu vários amigos no Solar da Ponte, como Camilo Castelo Branco, que aqui se refugiou em 1860, e Ricardo Severo, que fotografou um arraial no terreiro da casa em 1897. Foi também no Solar da Ponte que os investigadores europeus que visitaram a Citânia em 1880, escreveram os seus testemunhos, como Émile Cartailhac e Henri Martin, de Paris, Rudolf Virchow de Berlim, Juan Vilanova de Madrid e Adolf Pavinsky, de Varsóvia.

Após a morte de Sarmento, em 1899, o Solar da Ponte, doado à Sociedade Martins Sarmento (SMS), não voltou a ser utilizado como habitação permanente. Ainda na primeira metade do século XX, funcionou na casa uma Escola Primária. O edifício foi-se degradando até que restaram apenas as paredes mestras, em granito, tendo desaparecido a maioria dos compartimentos originais. Finalmente, foi possível um restauro integral do solar, em 2003, quando se procedeu à instalação do Museu da Cultura Castreja, uma extensão temática do Museu Arqueológico da SMS.

Sendo embora uma casa característica de uma família abastada, o Solar da Ponte tinha um aspeto austero, com quartos de pequenas dimensões dispostos ao longo da fachada Sul, "em longitude e forma conventual", no dizer de Camilo Castelo Branco. Da casa original, além do lagar de vinho e das características namoradeiras nalgumas das janelas, destaca-se o retábulo da capela interior, retirado em 1964, quando se acentuou a degradação da casa, e depositado na SMS.

 

Exposição permanente 1

No piso superior do Museu, a exposição é especificamente voltada para a figura de Francisco Martins Sarmento, com um conjunto de objetos que retratam a sua vida e os trabalhos que realizou.

Numa pequena sala, que conserva as paredes originais, vê-se um conjunto de móveis que pertenceram à "livraria" de Sarmento, incluindo a sua escrivaninha, sobre a qual o arqueólogo se debruçava durante várias horas, lendo e escrevendo correspondência, estudando obras, tomando notas e redigindo ensaios. Tal como a escrivaninha, a pequena mesa de apoio costumava servir para o investigador espalhar os seus livros e separatas, não faltando o habitual cinzeiro. Este conjunto de móveis, datados do século XIX (exceto o relógio inglês, do século XVIII), integravam o mobiliário do palacete que Martins Sarmento construiu em Guimarães, no Largo do Carmo, e onde vivia habitualmente. Neste edifício ainda se conserva uma parte das estantes originais, fixas nas paredes da biblioteca.

Na grande sala contígua, que era originalmente a zona da casa onde se situavam os quartos de dormir, voltados para a fachada mais soalheira, dispõem-se vários objetos que integram o espólio pessoal de Sarmento. O piano de cauda, fabricado em Paris, era utilizado pela esposa de Sarmento, Maria de Freitas Aguiar. Vêem-se algumas obras da autoria do célebre arqueológo, como o artigo Les Lusitaniens, o relatório da Expedição Científica à Serra da Estrela, promovida pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1881, o comentário à obra Ora Maritima, de Avieno e a apreciação crítica, escrita por Sarmento, à obra Citânia. Alterthümer in Portugal, da autoria do investigador alemão Emil Hübner, entre outras obras.

Destacam-se alguns objetos que ilustram a utilização da fotografia, bem como os métodos de escavação seguidos por Sarmento nos trabalhos realizados na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso. Martins Sarmento começou a fotografar, a partir de 1868, num período anterior ao início dos trabalhos arqueológicos que realizou. Por essa razão, os primeiros exemplos das várias centenas de fotografias que operou são retratos de familiares e amigos. A partir de 1874, quando deu início às campanhas de escavação na Citânia, Sarmento revelou-se um arqueólogo pioneiro ao utilizar a fotografia no registo das ruínas e das peças que resultaram dos seus trabalhos de campo. Reuniu várias destas fotografias em dois álbuns, que enviou para o Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra e para a Sociedade de Geografia de Lisboa,propiciando assim a divulgação das ruínas da Citânia e de Sabroso nos meios académicos. Estas fotografias seriam difundidas em diversas publicações científicas europeias.

A biblioteca de Martins Sarmento, com milhares de livros, em diversas línguas (Português, Francês, Inglês, Latim, Grego...), integra hoje o conjunto da Biblioteca da SMS. Integra sobretudo publicações científicas na área da Arqueologia, da História, da Antropologia e da Biologia. São visíveis na exposição alguns exemplares de livros, dos quais se destacam as obras dos autores clássicos greco-romanos (como a Geografia de Estrabão, e a Ora Maritima de Avieno), publicações de arqueólogos notáveis (como as obras de Heinrich Schliemann sobre as antiguidades de Tróia e Micenas, ou de Austen Henry Layard sobre as míticas descobertas de Nínive e Babilónia), bem como um exemplar da Origem das Espécies, de Charles Darwin.

É também tema da exposição a presença de Camilo Castelo Branco, um dos amigos mais próximos de Sarmento, no Solar da Ponte, onde se refugiou durante algum tempo, fugido à justiça devido à sua relação com Ana Plácido. No preâmbulo à sua obra Memórias do Cárcere, Camilo descreve a casa, bem como o quarto onde ficou, de cuja janela se via o monte da Citânia, cujos segredos se encontravam ainda, em 1860, por desvendar.

 

Exposição permanente 2

O piso inferior do Museu é dedicado aos materiais arqueológicos recolhidos na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso. Trata-se de objetos, maioritariamente fragmentados, que testemunham a arquitetura e a cultura material da comunidade que habitou esta região na Proto-história e no início da época romana. Em termos cronológicos, denominamos Proto-história, ou "Cultura Castreja" numa referência específica ao Noroeste da Península Ibérica, todo o período entre o século XII e o século I antes de Cristo. Este período costuma dividir-se, em termos académicos, entre Idade do Bronze Final e Idade do Ferro. Finalmente, entre os finais do século I a. C. e os inícios do século II d. C., retrata-se o período em que a Citânia continuou a ser habitada, na época Romana Alto-Imperial.

Os materiais arqueológicos recolhidos destacam-se pela sua variedade. São materiais inorgânicos, como elementos em pedra, fragmentos de cerâmica, vidro e um vasto leque de objetos metálicos (bronze, ferro e mesmo ouro). Uma grande parte dos materiais de construção e objetos pessoais dos tempos em que a Citânia foi habitada eram orgânicos, ou seja, traves e estruturas em madeira, várias louças e utensílios também em madeira, cestaria, mobiliário e roupas feitas com couro, linho e lã. Não existem praticamente vestígios destes objetos, que desaparecem naturalmente. Desapareceram também a maior parte dos elementos decorativos, como pavimentos interiores em barro e rebocos e pinturas de paredes, restando apenas vestígios. Assim sendo, as ruínas da Citânia constituem apenas o que restou da estrutura base das construções.

Entre os objetos expostos destacam-se os elementos arquitetónicos em pedra, que integravam lintéis, ombreiras e rodapés, decorados com os mais diversos motivos geométricos (por vezes de inspiração astronómica, noutras vegetalista), esculpidos diretamente no granito. Destacam-se também os exemplos de esculturas de figuras humanas ou animais, que são em muito menor proporção que as representações abstratas, que eram frequentes na Proto-história.

A cerâmica da Idade do Ferro é muito característica, pela sua tonalidade escura, que lhe é conferida pela cozedura, pela existência de muitos vestígios de mica nas pastas e pelos diferentes motivos decorativos. As técnicas de fabrico dos objetos em barro, bem como as diferentes formas e utilizações, e as distintas decorações, foram evoluindo ao longo do tempo, permitindo-nos assim diferenciar as cerâmicas de acordo com a época em que foram produzidas. As peças mais vistosas são, sem dúvida, as cerâmicas da época romana, importadas em grande parte, e que eram objetos de grande qualidade. No entanto, a grande maioria das cerâmicas recolhidas na Citânia de Briteiros são datadas da Idade do Ferro, particularmente dos últimos duzentos anos antes de Cristo, quando o povoado atingiu a extensão máxima que lhe conhecemos. Entre estas peças distinguem-se: grandes talhas usadas para armazenamento de bebidas (água, leite, cerveja) ou de cereais (trigo ou milho-miúdo); potes de tamanho médio, usados para guardar, confecionar e servir alimentos; tachos ou panelas, muitas vezes com asas interiores, usadas para cozinhar ao lume; almofarizes usados para esmagar e misturar diferentes produtos; terrinas, tigelas e malgas, usadas como louça de mesa; potinhos e púcaros usados para beber, os últimos mais utilizados para bebidas aquecidas. Desde algumas décadas antes da integração da região no Império Romano, a importação de vinho e produtos derivados é testemunhada por uma grande quantidade de ânforas romanas.

Os materiais metálicos testemunham a importância da metalurgia na sociedade proto-histórica. A manufatura de objetos em cobre, bronze, ferro, prata e ouro era uma atividade fundamental, quer relacionada com a necessidade prática dos objetos (armas, ferramentas e objetos pessoais), quer com o prestígio que a sua exibição propiciava (joias e outros objetos de adorno). Encontram-se expostas várias peças que ilustram os objetos metálicos existentes na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso: escórias; um molde de fundição em pedra; fragmentos de armas e de ferramentas; objetos de uso quotidiano como fíbulas e alfinetes de toucado; elementos de caldeiros ou caldeirões em bronze. São também visíveis nesta parte da exposição alguns achados excecionais, como um grande vaso com uma inscrição latina, que apareceu junto com uma moeda de bronze, um outro vaso que continha um par de arrecadas em ouro e vários exemplos de objetos em vidro, da Idade do Ferro e da época romana.

 

A Pedra Formosa e a ombreira decorada

No final da exposição, destaca-se a Pedra Formosa como o mais excecional elemento descoberto na Citânia de Briteiros, uma grande estela decorada em granito, esculpida a partir de uma pedra única. Junto da Pedra Formosa vê-se um fragmento de ombreira decorada que se supõe proveniente do mesmo edifício, o Balneário Este da Citânia, parcialmente destruído em 1932.

A Pedra Formosa terá sido retirada da Citânia entre os finais do século XVII e os inícios do século XVIII, do balneário onde se encontrava, na encosta Leste do povoado, juntamente com outras pedras decoradas. Foi transportada, por ordens do Abade José Inácio de Carvalho, puxada por doze juntas de bois, para uma propriedade num lugar chamada Poço da Ola, perto do rio Ave. No ano de 1718 foi levada para o adro da Igreja de Santo Estevão de Briteiros, onde permaneceu, na posição horizontal, durante mais de 100 anos. Francisco Martins Sarmento adquiriu a Pedra Formosa e fê-la transportar novamente para a Citânia, embora o arqueólogo desconhecesse a sua localização original dentro do castro. Ainda em vida de Martins Sarmento, a Pedra Formosa foi, finalmente, musealizada, integrando, desde finais do século XIX, o espólio do Museu Arqueológico da SMS.

A ombreira foi detetada em 2008, na Igreja de Santo Estevão de Briteiros, e supõe-se que seja uma das pedras decoradas trazidas da Citânia juntamente com a Pedra Formosa. Notam-se claras semelhanças na decoração dos dois elementos, sendo que as características do fragmento de ombreira permitem considerar a sua utilização na porta exterior do balneário.