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Monthly Archives: Agosto 2019

120º aniversário da morte de Francisco Martins Sarmento

Passam hoje (9 de Agosto de 2019) 120 anos sobre a morte de Francisco Martins Sarmento, ilustre patrono da Sociedade Martins Sarmento, instituição que nasceu em sua honra e vive sob o desígnio de prosseguir o seu trabalho científico e a lição de vida que nos deixou. Assinalando esta efeméride, a Direcção da SMS promoveu, no âmbito do Citânia Viva, alguns momentos comemorativos, destacando-se a Sessão realizada na tarde do dia 27 de Julho e na qual a Dr.a Isabel Silva, Directora do Museu Arqueológico D. Diogo de Sousa, sócia e membro do Conselho Científico da SMS proferiu uma conferência com o título “Evocação de Martins Sarmento – 120 anos após a sua morte”. Especialmente para o dia de hoje, o  Dr. António Amaro das Neves, também nosso sócio e, por sucessivos mandatos, Presidente da Direcção, escreveu e oferece-nos o texto memória que passamos a divulgar.

A Direcção da Sociedade Martins Sarmento presta, mais uma vez, homenagem ao sábio arqueólogo e revive o compromisso com o seu legado histórico.

 

 

No aniversário da morte de Francisco Martins Sarmento, precursor da renascença vital vimaranense

Passam agora 120 anos sobre a morte de Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento, arqueólogo de projecção internacional, etnógrafo, fotógrafo, escritor, poeta desiludido, cronista de pena afiada, nascido em Guimarães no dia 9 de Março de 1833.
Nunca antes, nunca depois, até aos dias que correm, a notícia de um óbito provocou em Guimarães uma convulsão de tão intenso e genuíno pesar, como a que chegou no dia 9 de Agosto de 1899. Ao anunciá-la, o jornal O Vimaranense, proclamou que “por ele chora não só Guimarães, a terra que lhe foi berço, e Portugal que se orgulha de ser a sua pátria, mas todo o mundo civilizado”. Na mesma altura, O Comércio de Guimarães descreveu-o como alguém que “era um sábio, era um santo, glória e honra da humanidade”.

O nascimento dera-lhe tudo o necessário para levar a vida confortável dos diletantes do tempo do romantismo. Nas duas primeiras décadas, seguiu o destino dos filhos dos grandes proprietários do seu tempo. Cresceu na então vila de Guimarães, passando largos períodos em S. Salvador de Briteiros, no solar paterno de onde se avistava um monte áspero que sepultava as ruínas de uma cidade misteriosa, erguida pelos “mouros” e povoada de lendas e de mouras encantadas. Aos quinze anos, concluídos os estudos preparatórios, ingressou na Universidade de Coimbra.
No final do século, o Conde de Margaride recordaria os tempos de Coimbra do seu amigo de infância:

Em Coimbra passava os dois terços do tempo devorando avidamente quantos livros de literatura podia haver à mão. À sebenta também não recusou um lugar, mas dava-lho como a credor implacável que pede impacientemente uma dívida; o que não obstou à conclusão do curso, sem sofrimento de desar nem necessidade de empenhos.

No regresso de Coimbra, com vinte anos, trazia na bagagem muitos livros e o diploma do curso de Direito, de que nunca faria uso. Se não precisava de trabalhar para assegurar o sustento e uma vida confortável, foi sempre um trabalhador infatigável. Nas duas décadas seguintes, andou à procura do seu destino. Passava os dias a ler, rodeado pelos livros da sua biblioteca, publicou um volume de poesia, apurou a prosa em crónicas que publicava nos jornais, aperfeiçoou os seus conhecimentos de línguas (dominava o castelhano, o francês, o inglês, o alemão, o latim e o grego), dedicou-se aos estudos, em especial aos clássicos, sem nunca deixar de se interessar pelos avanços do pensamento e da ciência do seu tempo. No final da década de 1860 iniciou os seus ensaios fotográficos. Dominada a técnica da fotografia, naquele tempo uma arte quase alquímica, Francisco Martins Sarmento empregou-a nas pesquisas arqueológicas que iniciou nas ruínas da Citânia que se escondiam no monte de S. Romão. Ao cabo de tantos trabalhos e estudos, encontrou a sua vocação na arqueologia. Haveria de ser ele a explicar quem eram os “mouros” de que falavam as velhas lendas que lhe povoaram a infância.

Tendo iniciado em 1874 a prospecção sistemática da Citânia de Briteiros, logo alargada ao Castro de Sabroso, Martins Sarmento seria consagrado internacionalmente em 1880, aquando do Congresso de Antropologia e de Arqueologia Pré-Histórica que se realizou em Lisboa. Sarmento não foi ao congresso, mas o congresso veio ter com ele a Briteiros. Algumas das figuras mais relevantes da cultura europeia daquele tempo, entre as quais Emile Hübner, Émile Cartailhac, Henri Martin e Rudolf Virchow, foram recebidas na Citânia por Martins Sarmento. Virchow, médico que ficou conhecido como “o pai da patologia moderna”, antropólogo e político alemão, opositor do chanceler Bismarck, redigiu o relatório desta visita, onde compara Sarmento ao descobridor de Troia e de Micenas, Heinrich Schliemann:

Neste lugar há um homem, M. Sarmento, residente em Guimarães, que, à imagem de Schliemann, despendeu grandes somas, durante anos, nestas escavações. Adquiriu os próprios sítios para os proteger contra mãos desqualificadas. Em cada ano, faz escavar uma parte da superfície do terreno e guarda cuidadosamente todos os objetos recolhidos, de tal modo que agora possui tantas peças que podem compor, sozinhas, um pequeno museu.

Até ao fim dos seus dias, Martins Sarmento identificou e estudou inúmeros sítios e monumentos arqueológicos, construiu uma vasta obra científica, publicou diversos livros e inúmeros artigos em revistas, compilou materiais para a grande obra que não chegaria a escrever, porque a doença se antecipou, onde iria apresentar uma visão de conjunto da arqueologia e da etnografia do noroeste peninsular, foi admitido nas mais relevantes agremiações científicas portuguesas e europeias, recebeu diversas condecorações de diferentes países, que nunca exibiu.

Em finais do século XIX, Martins Sarmento era um dos vultos mais destacados no panorama da cultura e da ciência português. Mas não era essa a principal razão da admiração que lhe dedicava o homem comum de Guimarães, que de arqueologia pouco ou nada entendia.
Durante décadas, os vimaranenses habituaram-se à presença da sua figura singular. Alto, magro, cabelo e barba negros, rosto sulcado por rugas profundas, pele que mal cobria os ossos salientes, bronzeada em longas expedições arqueológicas, a sua fisionomia combinava com o seu carácter austero, quase estóico, honrado, sem pretensiosismos, ponteado por uma ironia cáustica e dotado de uma lealdade sem subtilezas. Todos lhe realçavam a generosidade e o entusiasmo com que abraçava as causas da sua gente e o modo pronto com saía do recolhimento quase monástico em que vivia, no aconchego das páginas dos seus livros e dos seus cadernos de apontamentos, sempre que sentia a sua pátria, o chão que o viu nascer, ser alvo de alguma injustiça.
Um dia, na sequência da consagração internacional de 1880, a que se seguiu a sua elevação, pelo Estado francês, a cavaleiro da Legião de Honra, quiseram os seus conterrâneos homenagear Martins Sarmento. O arqueólogo, que a uma condecoração que o consagraria, disse preferir um pára-raios que protegesse o Castelo, começou por rejeitar a distinção. Recusou o monumento que planeavam erigir-lhe. Perante a insistência dos seus amigos e admiradores, acabou por transigir, mas impôs uma condição: que a homenagem tivesse a forma de um instituto que prosseguisse uma missão de elevação cultural dos seus concidadãos. E ainda seria preciso vencer a sua intransigência para que esse instituto pudesse ostentar o seu nome. Prontos os estatutos, pediu que “pelo menos lhe concedessem os três dias do enforcado”, para poder ponderar a sua decisão final. Acabaria por ceder. No dia 21 de Novembro de 1881, nasceu a Sociedade Martins Sarmento, que seria oficialmente inaugurada no dia em que Sarmento completou 49 anos, 9 de Março de 1882.
Para se perceber a importância da instituição que, por vontade de Francisco Martins Sarmento, nasceu como promotora da instrução popular em Guimarães, tomemos a descrição que se fez na notícia biográfica que saiu no primeiro número do jornal O Progresso publicado após a morte do arqueólogo da Citânia de Briteiros:

Quem viveu durante este último ciclo de vinte anos, sabe o que era esta cidade antes de 1881: as velhas instituições desmaiando no enfraquecimento de uma vetustez esmagadora; a indústria fabril, em que Guimarães fora famosa, com os seus ourives, os seus lavrantes, os seus teares de linho, a sua linha fiada e torcida a fuso, os seus cutileiros de velho renome, os seus curtumes seculares, tudo quanto constituíra a abundância, a opulência, a riqueza legítima de uma terra de honrados trabalhadores, os seus elementos de instrução, restos apoucados da velha e nobre terra, que se honrou, no velho convento da Costa, com uma quase universidade, esterilizados… tudo decaía, tudo se esbarrondava, tudo caminhava a reduzir esta nobre cidade, cheia de tradições, como uma história brilhante, a um… ermo com estradas!

O advento da Sociedade Martins Sarmento foi, nas palavras do presidente da sua direcção, Avelino da Silva Guimarães, aquando das cerimónias fúnebres do seu patrono, o momento da “renascença vital vimaranense”.
Francisco Martins Sarmento e os promotores da instituição que herdou o seu nome foram os primeiros responsáveis pelo movimento social que mudou a face de Guimarães nas últimas décadas do século XIX, encaminhando-a pela senda do progresso. Este movimento teve na Exposição Industrial de 1884 o primeiro momento de concretização dos seus propósitos, assumindo a aposta na instrução popular como percursora do desenvolvimento económico e social. No texto que escreveu para o número único do jornal A Indústria Vimaranense, lançado no dia da abertura da exposição, Martins Sarmento incentiva os seus conterrâneos a assumirem o seu posto “na luta contra a invasão da indústria estrangeira que ameaça reduzir-nos à extrema pobreza”, e aconselha-os a mudarem de atitude perante os poderes estabelecidos, abandonando “o papel de suplicantes”, porque

Quando os governantes, como o tiranete antigo, têm as orelhas nos pés, o pedido, ainda o mais justo, obriga a uma posição humilhante.
O que temos a fazer é coisa muito diferente.

Com a Sociedade Martins Sarmento, Guimarães inicia um profundo movimento transformador. Sob o seu impulso, os vimaranenses aprofundam a coesão da sua identidade e o sentimento de pertença a uma comunidade com interesses comuns, identificam os seus adversários, sejam eles o centralismo distrital ou nacional ou os desmandos de um juiz prepotente, questionam a orientação geral do sistema em que vivem e assumem-se como instrumentos para a prossecução dos seus desígnios colectivos.
Os fundadores da Sociedade Martins Sarmento, inspirados no exemplo do seu patrono, perceberam que o progresso e a modernidade viriam com a instrução e a cultura. Daí a sua aposta na instrução popular e o seu contributo para a criação da Escola Industrial, do Liceu, das escolas móveis, de museus, de bibliotecas, de arquivos. À sombra da Sociedade e do exemplo inspirador de Sarmento, impulsionaram-se os estudos científicos e surgiu em Guimarães uma escola de eruditos que não se confinavam ao território da sua erudição, nunca deixando de se envolver em causas para o bem comum. Para divulgar os resultados de todo esse esforço de estudo e de análise, nasceu a Revista de Guimarães.

*

Um dia, quando em Guimarães se decidiu homenagear um homem que vivia recolhido entre os livros da sua biblioteca, tentando decifrar os mistérios que se ocultavam debaixo de espessas camadas de tempo, os promotores da ideia logo souberam que a homenagem só seria aceite se se materializasse num organismo com preocupações sociais e voltado para o futuro. Assim nasceu uma sociedade científica que tinha como fim último a ilustração do povo e que, em poucas décadas, transformaria Guimarães num sector à parte, numa região que, na descrição de Manuel Monteiro de 1944, era “refractária não só aos problemas que agitam o pensamento moderno, mas também àqueles que dizem respeito ao seu passado étnico, histórico, artístico, ou interessam ao seu futuro económico, científico, social”.
Francisco Martins Sarmento foi o percursor e o inspirador do movimento social que, no último quartel do século XIX, transformou Guimarães e influenciou sucessivas gerações de vimaranenses. Continua vivo, 120 anos depois do seu desaparecimento físico do seu prógono, na Sociedade que se honra com o seu nome e que prossegue a obra que iniciou. Porque, como se escreveu em 1899 no jornal O Progresso,

Martins Sarmento está ao alcance de todos os olhares: procuremos a sua Sociedade e vê-lo-emos aí, austero, invencível, a apontar-nos para o caminho da instrução e da civilidade – as Letras!

9 de Agosto de 2019
António Amaro das Neves

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ArchivAVE – Moinhos e engenhos de serrar no Rio Este (1906)

Pedido de licença para modificar os caneiros dos moinhos (moendas) e engenhos de serrar (serração) que possui na margem do rio Este, afluente do rio Ave. Contém: requerimento, planta, certidão, edital, declaração, receita de pagamento, recibo, intimação, auto de vistoria, notas de serviço, despachos, cópia do diploma de licença número 108, termo de responsabilidade. Local: concelho de Vila Nova de Famalicão, freguesia de Nine, lugar de Couro. (mais informação)

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Vaga de calor em Guimarães (1923)

Noticia o jornal “A Razão”, de 31 de Agosto de 1923, uma vaga de calor que, tendo provocado vários estragos na América do Norte, atravessou o oceano, manifestando-se na Europa, abatendo-se também sobre a cidade de Guimarães. Segundo o periódico:

«(…) o fenómeno, que a princípio era tido como puro produto da fantasia americana, é já agora tido como verdadeiro pelos mais descrentes. (…) a vaga de calor deixou tal rasto que a ninguém pode restar duvidas da sua existência.
Aqui na cidade, onde o número de descrentes era enorme, manifestou-se ela por tal forma que eu estava a vêr uma insolação em massa. – Eu lhes conto.
Era uma tarde quente, desta tardes em que a gente inveja a indumentária simples com que se regalam os bijagós e quejanda pretalhada.
O Café da Porta da Vila regorgitava de freguezes. Nisto, a uma das portas surge, donairoso, esbelto, delicioso, um corpo de mulher. (…)
Tudo suava e muitas moscas vi eu que, preferindo a morte àquele inferno, se lançavam de olhos fechados para dentro dos copos dos refrescos, onde muitas morrerram. Aquilo era de mais.
E a temperatura a subir sempre… Um pavor!»

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