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Monthly Archives: Março 2020

Continuamos por cá: o Cerco do Porto do Coronel Owen

 

“Este velho livro teve sempre para mim um grande encanto. Antes de o ler, ouvi-o da boca de minha avó, miguelista ferrenha, que me contava, sentada no banco do quintal, a guerra dos dois irmãos.

(…) Ouvi-lhe todo o cerco, assisti com ela à entrada dos sete mil e quinhentos esfarrapados «que só venceram por traição do Povoas», e a outras peripécias que mais tarde procurei neste volume a que faltavam folhas.

(…) Quase lidei com todos estes fantasmas. Foi por isso decerto que o livro sempre me encantou, apesar de escrito numa língua-de-trapos. E talvez a língua arrevesada lhe aumentasse ainda o prestígio… Figurava-se-me ter ao pé de mim o pitoresco inglês descrevendo o Saldanha, o Torres obstinado na defesa da Serra e sem vintém para rapé, D. Pedro despindo o casaco para ensinar um carpinteiro a talhar o reparo duma peça, os labrostes dos arredores, com o saco às costas e a faca no saco, à espera do assalto à «rica cidade dos malhados» … – os quadros, as cenas, as figuras, que Owen, observador inteligente, anota e põe de pé com realce e precisão.

(…) Aí têm as razões porque este livro me interessa. Tem o prestígio da desgraça. Depois é simples. Depois misturou-se aqui alguma vida de Camilo. É também o depoimento dum estrangeiro sobre as nossas coisas, e dum estrangeiro que sabe ver, encontrar o traço preciso, ou pôr de pé um retrato em seis linhas flagrantes. Limpei-o aqui e ali para o tornar legível, procurando completa-lo com observações doutro inglês, Napier, e com algumas notas mais. Tudo isto que hoje nos parece minúsculo e longínquo diante da calamidade que revolve a Europa, se passou entre os quatro muros da nossa casa. Eu sou tripeiro. E, como já disse, ouvi muitas vezes esta história contada por minha avó na casinha sobre o rio, o que não se esquece… Estão à minha roda o soldado, a filha schakspereana, que morreu assombrada, com olhos de espanto que ainda hoje enchem de aflição – e sem ter compreendido – e sem ter compreendido!… Esperam outras, outras ainda…”

Raul Brandão, prefácio de O Cerco do Porto, do Coronel Owen, 2.ª ed. Porto: Renascença Portuguesa, imp. 1920. (Biblioteca histórica; 1).

No ano em que passam 200 anos sobre a Revolução Liberal em Portugal, lembramos o contributo do escritor da Casa do Alto, Raul Brandão, na obra memorialista do Coronel Owen, O cerco do Porto.

O Cerco do Porto, evento de pronunciado alcance na afirmação do Liberalismo em Portugal, decorreu entre Julho de 1832 e Agosto de 1833, opondo forças absolutistas, fiéis a D. Miguel, e liberais, apoiantes de D. Pedro. O Coronel Owen, militar inglês que se encontrava em Portugal desde o período das invasões francesas, vivia no Porto quando dos movimentos bélicos e, apesar de não ter incorporado qualquer agrupamento militar, obedecendo a indicações superiores, colaborou com D. Pedro durante o período que decorreu o conflito. O testemunho do Coronel, um dos mais completos sobre o confronto, contribui grandemente para a compreensão da Revolução Liberal Portuguesa. Owen desenvolveu com assinalável detalhe as operações militares, assim como descreveu os antecedentes do liberalismo, a configuração sociopolítica da época e os principais intervenientes da causa liberal e do absolutismo.

O cerco do Porto, editado pela primeira vez, pelo Coronel Owen, em Londres no ano de 1835, foi por Raul Brandão “ressuscitado”, em 1915 (tendo tido, cinco anos mais tarde, segunda edição revista), quando o prefaciou e enriqueceu com diversas notas e ilustrações de imagens e documentos coetâneos aos acontecimentos narrados.

Raul Brandão, militar, jornalista e um dos grandes vultos da literatura portuguesa da primeira metade do séc. XX, dedicou especial carinho ao testemunho de Owen, assim como a determinados momentos sociopolíticos do país. Produziu textos reveladores de uma grande acuidade historiográfica e de grande relevância para o conhecimento do período das invasões francesas – El-Rei Junot – do liberalismo e da guerra civil – A conspiração de 1817 – Gomes Freire de Andrade e O cerco do Porto – e do período da República – Memórias.

Do lado direito da imagem vê-se um excerto da carta enviada por Francisco Owen, bisneto do Coronel, autor da obra, para Raul Brandão, datada de 1916, após a primeira edição do livro (Arquivo da SMS).

Com os melhores cumprimentos,

A Direcção da SMS

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Epidemias de ontem e de hoje: hospitais de campanha

Ontem como hoje, as imagens dos hospitais de campanha dão-nos uma imagem do impacto destas pandemias.

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Epidemias de ontem e de hoje: a Pneumónica de 1918-19

Em todo o mundo, vivem-se hoje momentos de grande preocupação e desassossego causados pelo surto de um novo coronavírus, o SARS-CoV-2, responsável pelo desenvolvimento da Doença por Coronavírus, conhecida como COVID-19. Identificado pela primeira vez na cidade chinesa de Wuhan, em dezembro de 2019, o novo coronavírus surpreende tudo e todos com a velocidade e dimensão da sua transmissão, reportando-se já milhares de casos de infeção em 147 países, situação que levou a Organização Mundial de Saúde a declarar a COVID-19 como uma pandemia, uma verdadeira ameaça global.

Os efeitos desta guerra declarada à COVID-19 são visíveis também em Portugal. As ruas estão praticamente vazias, o trânsito diminuiu drasticamente, os transportes públicos circulam com poucos passageiros, a passagem nas fronteiras é controlada pelas autoridades, as companhias aéreas cancelaram inúmeros voos e multiplicam-se as ações de limpeza e desinfeção. Num momento tão desolador, a população, na sua generalidade, acata os apelos das entidades competentes e permanece em casa, respeita as distâncias de segurança e, com uma tremenda força de espírito e resiliência, organiza ajudas e entretenimentos através das redes sociais.

Ao viver esta situação tão dramática, é impossível não recordar o trabalho que temos vindo a desenvolver na Casa de Sarmento sobre a «gripe espanhola» ou «pneumónica», que se abateu sobre o mundo e o nosso país nos anos de 1918 e 1919. Tal como noutros pontos do mundo, em Portugal, a «gripe espanhola» desenrolou-se em três vagas, tendo sido a segunda, ocorrida entre finais de agosto e inícios de dezembro de 1918, a mais mortífera. Começou a manifestar-se a norte, na zona do Porto, mas devido à sua incrível virulência, nos inícios de outubro, já atingia o Algarve. Bem mais mortífera e devastadora do que qualquer outra epidemia, a «pneumónica» atacou preferencialmente os adultos jovens e dissolveu famílias inteiras.

Por recomendação do recém-nomeado Diretor-Geral de Saúde, o Dr. Ricardo Jorge, adotaram-se algumas medidas: determinou-se que todos os médicos deveriam comunicar os casos de gripe; recomendou-se a higiene e a desinfeção como medidas profiláticas; sugeriu-se que se evitassem aglomerações e impôs-se a limitação e vigilância das migrações dos trabalhadores agrícolas, bem como dos militares desmobilizados (recordemos que vivíamos os momentos finais da Primeira Guerra Mundial). O referido clínico afirmava mesmo, em 1918, que

«[n]ão fica mal deixar de visitar enfermos (…) e também não fica mal (…) acabar com os cumprimentos de uso – apertos de mão e ósculos de cerimónia, gestos que repugnam à higiene e até à cultura, restos que são do passado selvagem. As reverências chegam (…).»

Em Guimarães, no final do mês de setembro, a imprensa local fez soar o alarme. A gripe broncopneumónica, que já martirizava a população de Barcelos, Vila Real e Amarante, provocando inúmeras mortes, fazia-se também presente na cidade. Durante os meses da crise, entre finais de setembro e meados de dezembro de 1918, faleceram no concelho de Guimarães, com diagnóstico de gripe, mais de 500 pessoas (recorde-se que as estimativas mais conservadoras apontam, para todo o mundo, uma mortalidade de cerca de 50 milhões de indivíduos).

Nos jornais, lemos que a ação da «gripe espanhola» foi devastadora e a sua influência fez-se sentir em todos os planos da vida da comunidade. Atacando de improviso, atuando com rapidez, indiferente a géneros, idades e classes sociais, e altamente mortífera, a epidemia encheu os hospitais de doentes, habitantes da cidade, mas também das freguesias rurais, que lá chegavam transportados em carros de bois. No hospital da Santa Casa da Misericórdia, o surpreendente aumento do número de doentes colocou todo o pessoal hospitalar sob grande pressão, levando-o inclusivamente a pedir aumentos salariais. Os provedores, por seu lado, temendo a rutura dos serviços hospitalares (internamentos, consultas, curativos e medicamentos), multiplicaram os pedidos de subsídios ao Estado, recorreram por diversas vezes ao capital da instituição e implementaram medidas várias com o intuito de aumentar receitas e diminuir despesas.

O desenvolvimento da «gripe espanhola» obrigou também à intervenção da autoridade administrativa e de saúde pública. Para além de se apostar no isolamento dos doentes, internando-os no hospital provisório estabelecido nas Escolas de Santa Luzia, as autoridades locais procuraram evitar a concentração de indivíduos, impondo medidas que acarretaram mudanças no quotidiano dos vimaranenses: fecharam-se as igrejas e proibiram-se os atos religiosos aos domingos e dias santificados, bem como a peregrinação anual ao Santuário da Penha; as casas de espetáculos encerraram as suas portas; atrasou-se a abertura de todas as escolas oficiais e particulares; impediu-se a realização da feira. Por questões sanitárias, ordenou-se a remoção de todos os suínos do centro da cidade, a obrigatoriedade de limpar e desinfetar os prédios que tivessem contacto com esgotos, e pediu-se aos regedores das freguesias do concelho o envio de remessas de pinheiro e eucalipto para se queimarem nas ruas e largos da cidade. Para evitar o alarme social pela visualização do desfile quase ininterrupto de caixões a caminho do cemitério, proibiram-se os cortejos fúnebres e o transporte de cadáveres passou a fazer-se depois das 20 horas.

Num cenário de crise política e social, e com a população subjugada pela fome e a epidemia, ganhou especial importância a rede de solidariedades que se criou no seio da comunidade vimaranense para dar resposta a tantas situações aflitivas. Recorde-se, por exemplo, a iniciativa da Associação de Bombeiros Voluntários que, juntamente com a banda do Regimento de Infantaria nº 20, a Nova Filarmónica Vimaranense e o grupo musical dos «Guizes», organizou um bando precatório a favor do «hospital de pneumónicos» e dos doentes pobres do concelho; ou a de um grupo de particulares que criou a «Sopa Económica Vimaranense», que ofereceu gratuitamente uma refeição diária a 100 crianças pobres da cidade.

E já quando se celebravam missas em honra de São Sebastião, por se considerar debelada a terrível «gripe espanhola», eram poucos aqueles que ainda não tinham percebido que muito havia mudado em Guimarães. Através da imprensa da época, que pode ser consultada na página da Internet da Casa de Sarmento, avultam os relatos consternados que mostram como a fisionomia da cidade se alterou com o desaparecimento repentino e inesperado de tanta gente.

Hoje, somos mais uma vez surpreendidos pela Natureza. Convencidos da nossa capacidade de a controlar, julgávamos que estes eventos pandémicos estavam afastados para sempre. Eis-nos, contudo, confrontados com uma situação idêntica à vivida pelos nossos avós, há cem anos atrás, limitados às únicas medidas também ao dispor dos nossos antepassados: isolamento e higiene. Mas tal como eles, iremos certamente vencer esta pandemia e o medo que lhe está associado.

“Resta-nos, se é possível, escolher, contra o que nos faz tremer de apreensão e nos instala na instabilidade e no pânico, as forças de vida que nos ligam (poderosamente, mesmo sem o sabermos,) aos outros e ao mundo.” (José Gil, Público 15/03/2020)

Texto resultante da pesquisa desenvolvida na Casa de Sarmento por Antero Ferreira e Célia Oliveira, publicado no jornal “O Comércio de Guimarães” (18-3-2020)

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ArchivAVE – pedido de licença para aproveitar a força motriz de um moinho no rio Vizela

Francisco Faria da Silva, pede para aproveitar a força motriz do seu moinho (azenha), na margem direita do rio Vizela, para a laboração de uma fabrica de tecidos, um engenho de serrar (serração) e outro de triturar linho, que pretende construir. Contém: requerimento, despachos, planta, edital, certidão, declaração, receita de pagamento, notas de serviço, cópia de diploma de licença número 125.

Local: concelho de Guimarães, freguesia de Moreira de Conegos. Consultar

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Covid-19: Escola de Medicina da UMinho oferece plataforma de serviços clínicos digitais

A Escola de Medicina da Universidade do Minho (UMinho) criou um serviço clínico digital sobre o Covid-19, para atendimento generalizado e gratuito à população. Integrado no Centro de Medicina Digital P5 (www.p5.pt), o serviço representa um contributo da Escola de Medicina para se fazer face à situação crítica que se vive no país e no Mundo. O serviço, que está disponível através de www.p5.pt/helpdesk/, conta agora, para além da equipa de profissionais do P5, com mais de 150 estudantes dos 5º e 6º anos do curso de Medicina.

O P5 garante ainda, com o apoio de psiquiatras de todo o país, e em conjugação com a Direção Geral de Saúde, a Ordem dos Médicos e a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, um serviço de consultas de psiquiatria gratuitas por videochamada, destinado aos profissionais de saúde que se encontram ao serviço dos portugueses.

O P5 também está a trabalhar, num esforço colaborativo com equipas de engenheiros informáticos, na criação de algoritmos de Inteligência Artificial, que permitam orientar as dúvidas das pessoas (FAQ) de forma eficaz e redirecionar para fontes de informação cientificamente validadas. Paralelamente, a prestação de saúde gerais permanece necessária e, por isso, o P5 continua a disponibilizar os seus serviços clínicos em múltiplos contextos.

O Centro de Medicina Digital P5 é uma unidade que utiliza tecnologias digitais para monitorizar e melhorar a saúde das populações, complementando a rede de cuidados primários e hospitalares. O P5 conta com uma equipa multidisciplinar, composta por médicos, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas que aproximam os cuidados de saúde dos seus utentes e baseia-se nos pressupostos de que os cuidados de saúde devem ser preditivos, preventivos, personalizados e participativos.

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Repositório Genealógico do Corvo

Apresentação do projeto de Repositório Genealógico da ilha do Corvo, em 27 de fevereiro de 2020, na Casa do Tempo – Ecomuseu do Corvo.
Este projeto foi desenvolvido na Casa de Sarmento, unidade diferenciada da Universidade do Minho, com o apoio do CITCEM|FLUP.

 

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